domingo, 23 de julho de 2017

"A Fé foi embora"?


Bem sei que pode ser uma ilustração para levar alguém a refletir em busca de um cenário projetado. E digo mais uma vez: PROJETADO.
Mas na realidade, o que é fé? Fé é somente "acreditar" em um conceito próprio ou de um significado do senso comum? Parece que muitos que professam uma fé evangélica fazem isso pensado ainda na sua “fé” de outrora. Estes levam bagagens pesadíssimas e acham que estas são extremamente necessárias.

[...] Na Bíblia, ter fé ou crer envolve tanto confiança como entrega da vida. De várias maneiras o objeto da fé é descrito como sendo Deus (Rm 4.24; 1 Pe 1.21), Cristo (Rm 3.22, 26), as promessas de Deus (Rm 4.20), o caráter de Jesus como Messias e Salvador (1 Jo 5.1), a realidade da ressurreição (Rm 10.9), o evangelho (Mc 1.15) e o testemunho dos apóstolos (2 Ts 1.10). A natureza da fé, porém, é invariável. É uma apreensão responsiva de Deus e de sua verdade salvadora; é um reconhecimento da resposta dada por Deus à necessidade humana, que doutro modo jamais seria atendida; é a compreensão de que o evangelho é a mensagem pessoal de Deus, bem como o convite pessoal de Cristo ao seu ouvinte; é o mover-se confiante da alma em direção ao Deus vivo e ao seu Filho[...] (J. I. Packer)

Fé não está ligada a viver uma vida baseada em termos onde a locomotiva é um sensor experiencial, na verdade este é o conteúdo. Ao adotarmos estas premissas estamos dando lugar a uma fé vazia, denominada de fideismo.

A fé bíblica está pautada na confiança. O termo no original, ao nos depararmos em passagens do NT, vemos que não se concebe fé na esteira do crer, mas, mais aprofundadamente, num sentido incondicional de “expressar a ideia de um movimento de confiança que se dirige ao objeto da confiança e que descansa no mesmo”.
Essa genuína fé, a fé bíblica, não é produzida por livros, artigos, salas de seminários ou pregações de um preletor que preferimos no YouTube. Esta é a consequência de quem foi atraído com as cordas de Amor (Oséias 11:4) de Cristo e tem um interesse cada vez mais voluntário em responder a razão da sua fé (1 Pe 3:15).

A fé genuína nunca será gerada de fatores humanos!! Esta é gerada pelo próprio Deus. Vem direto do céu e nos mostra a profundidade e altura e a largura de sua obra redentora (Ef. 3:18-19).
Nunca um autor, que se propõe a fazer a teologia que for, será capaz deste feito. Só a sacra palavra de Deus pode, pois esta vem da essência do Espirito. Antes, estes fazem um trabalho laborioso para que possamos ter um pouco mais na percentagem da compreensão da obra vicária. Mas a revelação já estava lá antes deles. Isso que importa! Basta haver força de vontade de nossa parte.

Digo algo aos que tenho estima e cuidado: A fé não vai embora! Se ela foi embora, esta nunca foi a fé genuína que salva. E é esta que interessa. Piper chama esta de graça recebedora, pois a mesma recebe a Cristo. Sendo graça, nos impeli a perceber aquilo que somos e que temos. No fim das contas, com esta "graça recebedora", vemos que não temos nada se não for dado por Aquele que nos criou e um dia nos consumirá. Como me ludibriar achando algo perto das grandezas insondáveis que esta fé me propôs? Por acaso o seu "deus" não pode todas as coisas? O que lhe respondo é que o meu me tirou da cegueira das trevas para a genuína luz; Ele me fez seu filho; Transportou-me para reino do Seu amor. Como alguém estripado pelo pecado pode isso sozinho? Não sei, responda você. E digo mais: A fé genuína não desvanece, pois O mesmo que começou a boa obra vai terminar (Filipenses 1:6)
Fé está ligada ao fato de termos sido agraciados com a revelação da vida e obra de Cristo que nos faz perceber e nos envergonhar com a culpa, o poder e a presença do pecado. Esta nos mostra o real valor semântico da Justificação perante o ensino das Escrituras: Isso faz toda a diferença!

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

PLURALISMO FILOSÓFICO : Uma das dificuldades que a igreja enfrenta na pós-modernidade.



            Inegavelmente, passamos, atualmente, por um período que podemos de chamar de período pós-cristão. Isso é demonstrado pelo pensamento, ou pensamentos, que obtiveram maior khorus e mais tiveram adeptos no século XX, como: Pluralismo, Humanismo e o Relativismo.A força de impulsão destes modos de pensamento estão intrinsecamente ligados a imposição de outros pensamentos, que eram vigentes na idade média, na Europa. Correntes essas que eram antagônicas à liberdade de pensamento e expressão, dominantes por muito tempo as instituições das mais variadas possíveis.                                                                                                                                             Com o advento das ideias iluministas, na Europa do século XVII, passa-se a apregoar que a força da razão deveriam nortear as vida política, social e econômica. No entanto, mesmo assim, essa razão pregava regras que passaram a ser um incomodo dominante frente a subjetividade das pessoas e sociedades, pois muitas das ideias racionais não atendiam as demandas cada vez mais pungente por "liberdade". Quando tentamos conceituar essas ideologias, apresentadas anteriormente, podemos amparar nossa fala que diz, por sequência, que o pluralismo traz uma idéia de que todas as formas de pensamento são dignas de aceitação.  A verdade não se resume no fato de que essa é única e definitiva. Essa possibilita um modos operante que faz com que a conciliação seja algo a ser atingido perante tantas formas de ver uma determinada matéria. O padrão não condiciona, ele simplesmente enrijece a discussão, não possibilitando que a realidade de "certo" e "errado" seja ponto a ser admitido. Com base no "politicamente correto",  as matérias são avaliadas do ponto de vista subjetivo, pois o que justifica este pensamento é que valores são temporais e geográficos e que não podem balizar um outro valor. Neste pensamento, não há forma de pensar que se sobreponha a outra forma.                                                                                                    
         "Na filosofia, o pluralismo é uma posição metafísica que   considera que a totalidade do mundo é composta por   realidades independentes e inter-relacionadas. Esta posição distingue-se do monismo, que sustenta que a realidade é    uma só."
            
            Desta forma, todos os outros campos, em que há uma influencia da filosofia, são auferidos e moldam-se a ajustar-se neste discurso. Passa ser a tônica nos desdobramentos dos processos. Sendo assim, a indagação que nos direciona a discussão do assunto é de como isso vem sendo tratado dentro das instituições eclesiásticas. Sua interferência é cada vem mais forte e adentra de forma sorrateira e ardilosa nos conceitos clericais. De que forma isso vem sendo tangido já que as Escrituras não tem paralelismo com tais formas de pensamento? No cristianismo, para muitos de forma "ousada e arrogante", como não comunga com tais ideias, pois mostra nas Escrituras as passagens: "...a verdade, o caminho...", ..."água viva", "...o pão do céu.", leva ao embate e a relação de tais idéias definindo-se como a única forma de verdade inquestionável e imbatível. "O pluralismo teológico é a noção segundo a qual todas as religiões são caminhos úteis para chegar a Deus."
            Para Matos (2011):                                                                                                  
"Um dos elementos mais salientes do pós-modernismo contemporâneo é a exaltação do pluralismo, da diversidade, do inclusivismo. Valorizar as diferenças e as peculiaridades de cada grupo ou segmento da sociedade, principalmente de minorias historicamente oprimidas e desprezadas, é a atitude “politicamente correta”, isto é, normativa, segundo os cânones da nova mentalidade. Os inclusivistas alegam estar lutando contra males antigos como o racismo, a intolerância, o patriarcalismo, e certamente a história está repleta de horríveis injustiças nessas áreas. Todavia, o que muitos não percebem, ou não querem perceber, é que a ênfase irrestrita na diversidade e no multiculturalismo está sorrateiramente lançando as sementes de novas formas de intolerância e divisão entre os seres humanos. Utilizando uma imagem bíblica (Mt 13.25), enquanto os homens dormem estão surgindo as raízes de graves problemas para as gerações futuras."

            Comungar com o pluralismo é dividir o palanque com posicionamentos que tentam dar uma outra alternativa para o homem depravado, que se encontra confuso quanto ao que fazer perante suas faltas e necessidades. No porção do texto das Escrituras o próprio Cristo admoesta  os discípulos da sua divindade e de sua exclusividade e suficiência para a humanidade. "Respondeu Jesus: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim."
(João 14:6) e segue o texto complementando a assertiva: "Se vocês realmente me conhecessem, conheceriam também o meu Pai. Já agora vocês o conhecem e o têm visto".Disse Filipe: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta".Jesus respondeu: "Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer: ‘Mostra-nos o Pai’?" (João 14:7-9) Se a tendência do pensamento pós - moderno é pensar de forma plural pois considera toda forma de pensamento válida, como tratar as verdades constituídas nas Escrituras? Se não temos parâmetros para as demandas pessoais e coletivas, a Escritura , deixada pelo próprio Deus é relativizada.  Eis a maior conseqüência dada pela digestão do pluralismo: O relativismo.                                       Tal idéia prega que a verdades absolutos são diluídas pois necessitam de um contexto para que essa ganhe substancia. O sentido adjetivo das ações e coisas são definidas moralmente no entendimento que cada uma tem sobre uma determinada matéria. O que certo para um individuo , não o é para outro. O que é aceitável em um cultura é execrável na outra. Isso nos mostra que tudo que compõe a existência possui valor emplacado pela cultura a qual este elemento está. No AT, Deus já advertia, por meio dos profetas, do perigo desta forma de pensar.                                                                              

"Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" (Is 5:20)

            As Escrituras nos dá uma orientação para o posicionamento do crente frente estas correntes filosóficas que são danosas e tem um fim que se aparta da idéia de única verdade. Neste trecho, Deus exorta o povo de Israel a uma conduta que fosse amparada por valores dadas por Ele mesmo. Israel se deixava influenciar por outras formas de pensamentos oriundas de povos, com outros valores. Valores estes que se apartavam da moral Jeovaniana.                                                                               
Um outro grande problema, que podemos destacar com essa corrente, é de que a igreja já deixou se levar por essa forma de pensar. As posições "multidoutrinárias" são exemplos disso. As várias formas de Teologia empregadas no evangelicalismo, por razões múltiplas, vem enfraquecendo as diretivas de Deus para humanidade.  A igreja na Europa e EUA estão dando lugar a um agnosticismo e um Ateísmo cada vez mais crescente. O berço da reforma protestante está com menos de 4% da sua população em igrejas evangélicas.  É evidente o descontentamento de alguns perante aquilo que é ensinado. A multiforme interpretação e aplicação da Doutrina Cristã desmantela sua própria razão de existir.  Não falo das antinomias aceitas pela Escritura, mas das liturgias sincretistas e das teologias que ferem o âmago do texto sagrado.  No livro de Atos, vemos Lucas mostrando que  o ensino dos Apóstolos era difundido em rodas igrejas, fazendo a mesma ao crescimento.

"E, quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem observados, os decretos que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém. De sorte que as igrejas eram confirmadas na fé, e cada dia cresciam em número.
(Atos 16:4,5)
          
            No texto referido, a expressão "confirmados na fé" , em outras traduções, pode ser substituído por "fortalecidos na fé". Isso demonstra que a uniformidade do pensamento; a prestação de uma liturgia sã, amparada pelos preceitos doutrinários dos Apóstolos são imprescindíveis para desenvolver, de forma qualitativa e quantitativa, o avanço do Reino de Deus no mundo.  Sem padrões e diretrizes as pessoas tendem  ao caos existencial, pois proferindo o pensamento pluralista/relativista, provocados pela humanismo, elas fogem da sua natureza original que é o louvor da Glória do Deus Trino. Na Sua criação, nos primeiros trechos do livro de Gêneses,  Deus se mostra um ser de planejamento e ordenamento. Esses adjetivos não fugiriam na sua forma de fomentar parâmetros para nossa vida, seja no mais simples e básico (1Co 10:31) e/ou naquilo que demanda um debruçamento maior , que é a salvação de um individuo. É bom, antes de mais nada, destacar a diferença entre pluralismo e pluralidade. A pluralidade é permitida por Deus para que esta seja cabida no plano que foi arquitetado desde a fundação do mundo, todavia o pluralismo é uma vontade permissiva de Deus, mas não forjada a partir da sua infinita bondade e sabedoria, é algo da causalidade humana que insiste em procurar suas formas de religião, conservando suas demandas decaídas, tentando se livrar da culpa dos seus erros, se abstendo da Revelação e justificando a razão de ser de suas religiões, que nada mais são que  uma tentativa de legitimar uma auto-aceitação de erros de conduta, pois preferiram a desobediência de origem carnal do que a inclinação incorruptível do que é espiritual. Jesus, nos admoesta no dialogo com a Samaritana, que "Deus procurava adoradores que o adorassem em espírito e em verdade" (João 4:23). A verdade, a única verdade, não pode ser diluída pois não a outra forma de se relacionar com Deus que não seja com espírito livre do que é corruptível. Não há outra forma de adorar a Deus que não seja naquilo que está listado em seus estatutos (João 14:21).  
            Para Weronka (2013),                                                                                  
            "Pluralismo Religioso é diferente de diversidade ou variedade religiosa. Diversidade/variedade (Pluralidade) é o fato de que existe uma gama imensa de credos, que até certo ponto produzem benefícios aos indivíduos e a sociedade, e isso é um fato inegável. Ao falar em Pluralismo Religioso designamos a filosofia que afirma que todas as religiões são iguais, boas, com os mesmos fins e que na essência possuem o mesmo sistema de crenças, levando por conseqüência ao mesmo fim. Mas atenção! Não estou dizendo que mórmons, budistas e kardecistas são pluralistas. A pessoa que aceita o pluralismo religioso não é necessariamente praticante de uma religião, mas sim de uma filosofia religiosa."
             
           Percebemos em Veronka a necessidade de parear as expressões é importante, pois mostra que o conceito filosófico é ainda mais perturbador no ensino doutrinário que o outro que é, simplesmente, um fenômeno de causas temporais e espaciais.
 Conclusão
            Não é difícil perceber no evangelicalismo mundial esta filosofia cada vez mais arraigada. Isso, com um justificativa própria que leva um marketing inclusivista. Não que a igreja Cristã seja exclusivista, de modo algum. O que está em discussão é sua identidade como instituição instaurada por Deus . É necessário a observância das Escrituras com a maior rigor hermenêutico possível. Isso para que possamos estar firmes (Tt 1:9) naquilo que Deus fala como ordenança sem concessões por causa do liberalismo teológico cada vez mais reinante nos seminários, desembocando assim, nos cultos de doutrina e exposições dominicais.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Dia do Senhor!! - por Pr. Geilson Rocha

Graça e paz do Senhor!
Recentemente compartilhei um texto do Solano Portela tratando sobre o 4º. mandamento que, para quem está desinformado, fala sobre a necessidade de se guardar o sábado ou, mais especificamente, separar um dia da semana para e estar descansando e adorando ao Senhor. 
Como foram poucos os que leram, o que já era de se esperar, pois o nosso povo ainda não cultiva o hábito da leitura, e aproveitando o reinício da nossa EBD, deliberei esboçar algumas linhas sobre o assunto "4º. mandamento".
Nós, cristãos evangélicos (excetuando-se os sabáticos), convencidos já estamos da não obrigatoriedade da guarda do sábado (7º. dia da semana), literalmente. Mas a necessidade de termos um dia na semana em que concentramos nossos esforços e energias em atividades e programações que envolvam a adorar a Deus, isso é inquestionável. O que muitos não sabem, ou preferem não saber, é que esse dia separado para descanso e adoração, como está nas Escrituras, é o domingo, reclassificado pelos apóstolos como "o dia do Senhor". Portela assim pontua: "Esse "dia de descanso" era o sétimo dia no Antigo Testamento, ou seja, o nosso "sábado". No Novo Testamento, logo na igreja primitiva, vemos o dia de ressurreição de Cristo marcando o dia de adoração e descanso. Isso é: o domingo passa a ser o nosso "dia de descanso". Os apóstolos acataram esse dia como apropriado à celebração da vitória de Jesus sobre a morte (At 20.7; 1 Co 16.2; Ap 1.10).". O dia de descanso é pois definido na própria bíblia não estando, contrariando a frouxidão subjetivista de alguns, à mercê da escolha individual de cada um. O domingo é o dia do Senhor! 
Afirmar a santidade de todos os dias como justificativa da utilização profana do domingo não passa de argumento falsamente piedoso para negligenciar a separação desse dia. 
Portanto, domingo, prioritariamente, não é dia de praia, de futebol, de ficar em casa, de curtir a família, de ganhar mais dinheiro e atividades afins, mas de se estar voltado para Deus, em reverente comunhão e adoração. O domingo é o dia ideal para nos envolvermos em atividades que primam pela edificação espiritual, pelo conhecimento de Deus e sua Palavra. 
Ainda sobre o 4º. mandamento, Portela é muito feliz ao asseverar:
"Devemos notar que o requerimento é que nós nos lembremos do dia de descanso, para o santificarmos. Santificar significa separar para um fim específico. Isso quer dizer que além do descanso e parada de nossa rotina diária, Deus quer a dedicação desse dia para si. Nessa separação, o envolvimento de nossas pessoas em atividades de adoração, ensino e aprendizado da Palavra de Deus, é legítimo e desejável. A frequência aos trabalhos da igreja e às atividades de culto, nesse dia, não é uma questão opcional, mas obrigatória aos servos de Deus. O Salmo 92, que é de adoração a Deus, tem o título em hebraico – "para o dia de descanso"." 
Após esse esclarecimento, abdicar regularmente de estar na igreja no domingo, dia do Senhor, é quebra de mandamento.
“No dia do Senhor, achei-me no Espírito e ouvi por detrás de mim uma voz forte, como de trombeta” (Apoc 1:10 NVI).
Quem sabe não é uma experiência dessa que você, crente em Cristo Jesus, tem se privado!? Pense nisso!
Pr. Geilson Rocha

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A expressão "o bom, o certo" é relativa ou concreta?

Essas expressões vêm sido usadas de forma, em que seus significados são bem flexíveis na valoração de coisas e atitudes de pessoas. Estas ganharam certa notoriedade depois do iluminismo, quando alguns pensadores, como Immanuel Kant, sec. XVIII, em suas analises, levaram a bivalência ou "mais valências" a verdade (relativismo), isto é, as coisas e pessoas não tinham mais significados concretos. Toda construção de valores era esteio que compunha de vários aspectos sociais, ontológicos e inatos. Sendo assim, o abstrato tem mais valor que o concreto, o vivido e o definido no real. Os argumentos usados pelos pensadores parecem bem convincentes se colocarmos a humanidade como autora principal de seus processos e demandas na historia.                                                                                   
No texto do evangelho de Matheus 19:16-22, Jesus entra em um dialogo com o jovem rico. Texto muito conhecido pelo ensino moral que prega ideia de que não adianta verificar (obedecer) toda a lei, se seu coração não está em adoração ao Autor da Lei; e que é fácil corromper-se dessa forma, quando estamos apegados a coisas deste mundo. Pois bem, o que fica não muito em evidencia neste texto é o versículo 17, quando diz: " Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos" (ARA).                                               

O interessante nesta passagem é a primeira sentença , na fala de Jesus: "... que você me pergunta sobre o que é bom?..." O jovem, ao iniciar a conversa, teria perguntado a Jesus o que ele poderia fazer de bom para alcançar a vida eterna. Jesus, o nosso Mestre, já havia percebido o intento no coração do jovem. O que melhor poderia fazer de bom, já que ele era detentor de tantas riquezas, abastado pela vida, e ainda , tinha convicção de seus deveres com a lei? O sentimento que pode vir, ao pensarmos no dialogo, é que Jesus já tinha dado a resposta a ele desde a primeira fala. Para pessoas que não sentem falta de nada, nem de Deus, "o bom" é alcançável pela força de suas mãos, pela força de suas posses. Não venho aqui dizer o servo do Senhor não pode ter posses e adquirir o melhor desta terra, na verdade, o intento é argumentar sobre o que o mundanismo tem feito com as convicções que devemos ter em Deus. Que por mais que o mundo não dê as certezas, que para nós são demandas, o Autor e Consumador da fé dará, mesmo que a circunstância pareça contraria. A palavra nos admoesta ao "sim sim e não não" (Matheus 5:37). Ela não nos faz pensar que "o bom" é circunstancial ou subjetivo. Ela nos direciona, não importa a condição de vida, que o Pai, o Filho e Espírito Santos são mais que suficientes para nos dá aquilo que necessitamos.                                                                                                                
No texto do livro de Isaias 5:20-2, diz : “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!”. Mais uma vez Deus, por intermédio do profeta, nos admoesta acerca do relativismo causado do pensamento humano. O profeta é enfático neste trecho sobre os pecados que podem parecer bons, pois temporariamente nos trazem sentimentos que nos desviam das ocorrências da vida. Pecados estes que provocam em nós um sentimento de satisfação, mas na verdade estão em desagrado com a essência da verdade das Escrituras, com a intenção de suprir suas necessidades pessoais (alma e carne).                                                                                                                                   
Por isso queridos, olhem para luz da verdade que é a Palavra, o próprio verbo que se fez homem. Não dê espaços para limitações de filosofia humana. Existe, ao nosso alcance, Aquele que produz em nós refrigério. Aquele que produz em nós "a fé, a esperança e amor" (1 Co.13:13a). Produz aquilo que mais precisamos, pela fé em Cristo na Sua palavra,  que é obedecer.

"Assegurou-lhes Jesus: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.( João 14:6)"



Sola scriptura   

quinta-feira, 4 de junho de 2015

As origens do evangelicalismo



O evangelicalismo tem sua origem no interior da Igreja da Inglaterra no século XVIII. Havia, desde o século XVI, a herança da ala mais protestante da Igreja (“igreja baixa”), com a influência luterana e calvinista e a presença de puritanos que optaram pela permanência na instituição. Com os irmãos John e Charles Wesley, George Whitefield e John Fletcher vem a influência armeniana.

Vale lembrar que o “metodismo” foi primeiramente um movimento evangélico dentro da Igreja Anglicana. Os irmãos Wesley viveram até o fim nessa igreja, e, até hoje, constam como homenageados pelo calendário anglicano. Após a sua morte é que há o cisma, com a criação da Igreja Metodista. Parcela significativa dos seus seguidores, porém, continuou na Igreja Anglicana, formando a ala evangelical.

As características 

O evangelicalismo inglês, nos seus primórdios, foi marcado pelo compromisso com a Bíblia como Palavra de Deus, a confessionalidade credal, a disciplina pessoal, a piedade, o amor aos necessitados, o zelo evangelístico e a denúncia contra a decadência de costumes.

Em reação ao iluminismo e ao humanismo, assim resumia um autor as marcas do evangelicalismo: “O homem não é a criatura nobre que muitos pensam ser; ele é falível, e totalmente depravado. Por isso ele precisa de salvação, e a salvação só vem através de Cristo sozinho e depende da fé. A aceitação, pela fé, de que Cristo é Salvador é chamada de “conversão”, e esta conversão normalmente acontece de maneira súbita, que nunca mais será esquecida, como um tesouro, para o resto da vida. Mas a conversão não é o fim. Ela leva, naturalmente, a uma san-tificação e crescimento na graça. Estas, o crente encontra por meio da oração, do estudo diário da Bíblia, dos sermões e, por extensão, dos sacramentos.”

O movimento foi marcado pela revitalização da pregação, pela inclusão das emoções e pela mudança de vida em milhares de pessoas.

No começo a sua base social era entre as camadas populares, mas uma de suas militantes foi Selina, Condessa de Huntingdon, que promoveu em sua mansão cultos para a aristocracia e a burguesia. Muitos se converteram e aportaram recursos para a causa (bispos assistiam aos cultos escondidos atrás de uma cortina...), e a primeira escola para a formação de missionários foi organizada em Gales. A música cristã foi influenciada, com a composição de hinos que se tornaram populares até hoje.

O crescimento

Com o cisma metodista os evan-gelicais anglicanos ficaram inicialmente fragilizados, mas logo foram revitalizados, no início do século XIX, sob a liderança de Charles Simeon, de Cambrigde, inspirador dos primeiros movimentos de universitários cristãos, e de John Venn, de Claphan, que, juntamente com William Wilberforce, combateu o siste-ma escravista e as injustiças sociais, no âmbito da ação parlamentar e de iniciativas filantrópicas.

Os evangélicos criaram a “Sociedade Missionária de Folhetos”, para a distribuição de Bíblias e de literatura religiosa às massas. Fundaram também a primeira missão ao estrangeiro, a “Sociedade Missionária da Igreja” (CMS). Vastas áreas do que é hoje a Comunhão Anglicana foram evangelizadas por evangélicos, permanecendo assim até hoje (Quênia, Uganda, Nigéria etc).

No século XIX, primeiro na Grã-Bretanha, depois na América do Norte, e, finalmente, no mundo inteiro, a partir do anglicanismo, o evangelicalismo se espalhou por praticamente todas as denominações reformadas, em muitas se tornando hegemônico e, em algumas, exclusivo. Na Inglaterra a maioria se reúne na Assembléia Nacional dos Evangélicos (ENA) e, em nível inter-nacional, na Fraternidade Evangélica Mundial (WEF).

Na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX o evangelicalismo sofreu um relativo declínio na Igreja da Inglaterra e um enorme declínio nas igrejas anglicanas do Canadá e dos Estados Unidos, diante do crescimento do liberalismo e do anglo-catolicismo como outras correntes internas. Após a Segunda Guerra, porém, sob a liderança do Rev. John Sttot, o movimento conheceu novo florescimento, computando hoje 40% do clero da Igreja da Inglaterra (com sete dos quinze seminários teológicos), e sua influência já se faz sentir no âmbito da hierarquia: dois dos últimos quatro Arcebispos de Cantuária (líderes espirituais e símbolos de unidade) foram oriundos do evange-licalismo: o penúltimo, Donald Coggan (um “clássico”), e o atual, George Carey (um “carismático”). A Fraternidade dos Evangélicos na Comunhão Anglicana (EFAC), presidida pelo Arcebispo de Quênia, Revmo. David Guitari, reúne, em nível internacional, os seguidores dessa corrente no anglicanismo.

Autores como J. Packer, Michael Green, C. S. Lewis, Christopher Wright, além do próprio John Sttot, e tantos outros são reconhecidos mundialmente, e sua marca se fez sentir no Movimento de Lausanne. O mundo cristão é grande-mente devedor à teologia evangélica anglicana, embora muitos leitores sequer saibam que esses autores são anglicanos e tenham dificuldade em entender a vigorosa presença do evangelicalismo no interior de uma igreja marcada pela diversidade de correntes internas.

Evangelicalismo versus fundamentalismo
Em sendo assim, é bom lembrar que: 1) o evangelicalismo tem origem na Grã-Bretanha e não nos Estados Unidos da América; 2) o evangelicalismo tem origem no anglicanismo e não nas igrejas livres; 3) o evangelicalismo original tinha forte consciência social e política; 4) por sua base em universidades como Cambridge e Oxford, o evangelicalismo sempre foi compatível com a excelência acadêmica; 5) o evangelicalismo das igrejas históricas litúrgicas (anglicanos e luteranos) se expressam — com simplicidade e criatividade — no marco da liturgia de suas igrejas, não compartilhando do excessivo espontaneísmo cultural dos evangélicos de outras igrejas; 6) o evangelicalismo de origem européia, particularmente o das igrejas históricas litúrgicas, se distancia do legalismo e do excessivo moralismo dos evangélicos (e fundamentalistas) de outras igrejas, demarcando uma nítida diferença na área de usos e costumes; 7) o evangelicalismo das igrejas históricas litúrgicas tem participado, de modo afirmativo, do movimento ecumênico, não comungando do separatismo nem do sectarismo encontrados em outros círculos evangélicos (e fundamentalistas); 8) o fundamentalismo (fraco na Grã-Bretanha e forte nos Estados Unidos) surgiu, 100 anos depois, como expressão localizada e extremada do evangelicalismo, e não o evange-licalismo como expressão moderada do fundamentalismo; 9) o que se conhece como “evangelicalismo” no Sul dos Estados Unidos e na América Latina na verdade não é evangelicalismo, mas fundamentalismo. Esse é o cenário majoritário no Brasil hoje.

Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Respeito dos Dons Espirituais: Continuacionismo ou Cessacionismo? Pr. Leandro Lima - IPB Santo Amaro

Aqui entramos num dos campos mais debatidos dos últimos tempos, desde que o movimento pentecostal, no início do século 20, disse ter restaurado todos os dons espirituais dos tempos apostólicos. Quero destacar quatro aspectos nesse sentido, para contribuir com o debate.
Inicialmente é preciso uma palavra sobre posicionamento teológico, pois geralmente quando alguém assume uma posição, surgem acusações e rótulos nem sempre felizes. Quando alguém se diz calvinista (ou arminiano), isso não significa necessariamente que essa pessoa concorde ou tenha que concordar com absolutamente tudo o que Calvino (ou Armínio) escreveu. Provavelmente os únicos dois que foram absolutamente calvinistas ou arminianos, nesse sentido, foram justamente Calvino e Arminio. Ser um calvinista hoje (como é o meu caso) significa seguir as linhas mestras do pensamento de Calvino, o qual, também pode ser encontrado em outros teólogos como Agostinho, do qual Calvino se dizia devedor, e acima de tudo, porque essas linhas mestras de pensamento são essencialmente bíblicas. E é só por isso que o calvinismo é tão excelente, na minha opinião, justamente por ser profundamente bíblico. O calvinismo não é uma camisa de força. Se fosse, estaria ocupando o lugar da Bíblia, e isso seria um tipo de idolatria. Só para dar um exemplo, hoje em dia, poucos calvinistas seguem o pensamento de Calvino em relação ao Domingo[1]. A maioria prefere seguir a posição da Confissão de Fé de Westminster (CFW)[2]. E alguém diria que a CFW não é calvinista?[3] Ou seja, mesmo que Calvino tivesse advogado uma posição estrita em relação ao cessacionismo ou ao continuacionismo, o fato de alguém adotar uma posição ligeiramente diferente não faz essa pessoa deixar de ser calvinista se ela mantiver as linhas mestras do pensamento reformado. O calvinismo é um sistema de teologia reformada, ou seja, uma correção dos problemas teológicos anteriores, especialmente os sustentados pela tradição romana. Mas não pretende ser a Palavra Final, pois o sistema pode ser continuamente reformado através das Escrituras.
Em segundo lugar, uma palavra deve ser dita sobre os termos. Continuacionismo e cessacionismo, na minha opinião, são termos impróprios. Não só porque não são bíblicos, como porque pretendem se impor sobre a própria Bíblia e, em última instância sobre o próprio Espírito. A Escritura diz que o Espírito concede os dons soberanamente, "conforme lhe apraz" (1Co 12.11). Mas os continuacionistas exigem que ele continue operando os mesmos sinais de outrora, e os cessacionistas exigem que ele não os realize mais. E o fato é que o Espírito Santo não disse nas Escrituras, de uma forma clara e inequívoca, nem uma coisa nem outra. Ao impor a opinião pessoal sobre a soberania do Espírito, ambos os grupos correm o risco de apagar o Espírito (1Ts 5.19). Os primeiros por se esquecerem que há um critério (1Ts 5.21), e os últimos por desprezarem o que Deus pode fazer (1Ts 5.20).
Em terceiro lugar, em linhas gerais os reformados creem que os dons revelacionais cessaram, mas os de ministério não. E aqui, mais uma vez, Calvino é útil, pois ao comentar sobre a atuação soberana do Espírito concedendo dons à igreja ele diz: "O Espírito de Deus, portanto, distribui estes dons entre nós, a fim de concentrarmos toda a nossa contribuição visando ao bem comum" (Comentário 1Co 1.12.11). Ou seja, Calvino cria que o Espírito ainda estava concedendo dons à igreja, porém, entendia que os dons revelacionais e também os de milagres e curas haviam desaparecido. Os primeiros porque a Revelação estava completa em Jesus Cristo, e os últimos por causa da própria evidência do Novo Testamento que aponta para o desaparecimento deles[4]. Calvino cria que diversos dons e ofícios eram temporários, pois tinham a função de lançar os fundamentos da igreja (Ef 2.20, Ver comentário em 1Co 12.28).
Parece de fato lógico pensar que os dons revelacionais não estão mais em atividade no mundo justamente porque Deus já revelou tudo o que era necessário para nossa salvação e aperfeiçoamento espiritual, e estas coisas estão registradas na Bíblia (2Tm 3.16-17). Tudo o que uma pessoa precisa para ser "perfeito e perfeitamente habilitado para boa obra" já foi registrado na Escritura (2Tm 3.17). Então, qual seria o sentido de Deus continuar revelando mais coisas assim? Por isso, quando continuamos buscando novas formas de revelação normativa, de certo modo estamos dizendo que o registro bíblico é insuficiente, e esta, sem dúvida é uma atitude perigosa. Mas isto não significa dizer que Deus parou de falar. Os reformados nunca defenderam essa posição. E, pasmem alguns, os reformados não insistem que Deus fala somente através das Escrituras. A teologia reformada sustenta, por exemplo, a chamada Revelação Geral. Significa dizer que Deus se revela através da natureza, conforme o Salmo 19 e Romanos 1.18ss tão claramente demonstram. Mas aqui chegamos ao ponto crucial. Nenhum reformado busca a revelação de Deus diretamente na natureza, antes observa a natureza através dos "óculos" das Escrituras. Portanto, em quarto lugar, a Escritura é o critério final, justamente por ser a Revelação Final. Ela tem o poder de julgar todas as demais maneiras de ouvirmos a voz de Deus. Parece que é justamente isso o que Paulo tem em mente quando ele diz "julgai todas as coisas, retende o que é bom", justamente num contexto de "não desprezar profecias" (2Ts 5.19-21).
Os reformados da Confissão de Fé de Westminster que declararam que uma vez que a Escritura está completa, "cessaram aqueles antigos modos de Deus revelar sua vontade ao seu povo" (I.1), complementaram isso dizendo que o critério último através do qual todas as disputas teológicas precisam ser solucionadas é "o Espírito Santo falando nas Escrituras" (I, 10). Os reformados criam em "iluminação espiritual", ou seja, que Deus pode sim falar comigo hoje. Ele pode me orientar nas decisões do dia a dia, mas não fará isso independentemente da Bíblia. Se Deus quiser, pode até mandar um anjo falar comigo, ou um sonho, ou a palavra iluminada de um crente fiel (alguém poderia dizer que Deus pode usar até uma mula se quiser, como no caso de Balaão). Mas nada disso será o critério final para eu saber qual é a vontade dele, até porque Paulo disse que se um anjo viesse falar aos gálatas um evangelho diferente daquele já revelado deveria ser considerado maldito (Gl 1.8). O meu critério é a Escritura. Através dela eu interpreto o modo como Deus fala na natureza. Através dela eu interpreto o modo como Deus pode falar no meu coração ou através de algum crente fiel. Estritamente, portanto, eu jamais chamaria esse "falar de Deus" de "nova revelação", pois se fosse, a Escritura não poderia ser juiz dele. Se a Escritura é seu juiz é porque esse falar de Deus não é novo, mas apenas um desdobramento daquilo que a Escritura já disse. Por isso o termo correto é iluminação.
Concluo dizendo que não creio em "novas revelações normativas", pois se acreditasse teria que dizer que a Bíblia ainda está sendo escrita. Creio que Deus "fala". O Espírito Santo habita o crente e o dirige, e ainda lhe deu um critério infalível para saber quando de fato ele está falando: a Escritura. Portanto, na minha opinião falar em ser estritamente continuacionista ou cessacionista é uma falácia metodológica. Alguns dons cessaram, outros não. Dons revelacionais eram temporários e cessaram, dons ministeriais continuam em ação. Acima de tudo, sejamos criteriosos. Não queiramos impor limitações para Deus, mas não nos esqueçamos dos limites que ele mesmo impôs: aquilo que ele já revelou e ordenou que fosse registrado na Escritura.
[1] Calvino parece não ver ligação entre o Domingo e o quarto mandamento, como posteriormente os Puritanos claramente veriam. Antes, entende que o Sábado foi abolido e o Domingo foi instituído para "fins eclesiásticos e políticos", ou seja, para que os trabalhadores tenham um dia de descanso e a igreja um dia para se reunir: "Pois, visto que para suprimir-se a superstição se impunha isto, foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo, para este fim" (Institutas, II, 33). Calvino inclusive entendia que, se uma igreja quisesse escolher outro dia para se reunir, embora ele próprio entendesse ser o Domingo o dia mais indicado, contudo não se oporia: "A tal ponto, contudo, não me prendo ao número sete que obrigue a Igreja à sua servidão, pois não haverei de condenar as igrejas que tenham outros dias solenes para suas reuniões, desde que se guardem da superstição. Isto ocorrerá, se se mantiver a observância da disciplina e da ordem bem regulada" (Institutas, II, 34).
[2] "Como é lei da natureza que, em geral, uma devida proporção do tempo seja destinada ao culto de Deus, assim também em sua palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por Ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado Domingo, ou dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão" (CFW, XXI.7).
[3] Exceto, é claro, R. T. Kendall e os antinomianos...
[4] No caso do dom de curar, é interessante que Paulo não parece mais evidenciá-lo no final de seu ministério quando ao invés de curar Timóteo mandou que ele bebesse vinho misturado com água por causa de suas constantes enfermidades de estômago (1Tm 5.23). E também, em outra ocasião, ao invés de curar Trófimo, diz que deixou-o doente em Mileto (2Tm 4.20)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

“Adorar a Jesus é idolatria,” por Marcelo Berti

Marcelo Berti

“Adorar a Jesus é idolatria,” de acordo com a Sociedade Torre da Vigia [STV]. De acordo com essa entidade religiosa, “a Bíblia deixa bem claro […] que a adoração — no sentido de reverência e devoção religiosas — deve ser dirigida unicamente a Deus. Moisés o descreveu como ‘um Deus que exige devoção exclusiva’.” [É correto adorar a Jesus? – Despertai, 2000, pp.27]. Oferecer adoração a Jesus Cristo seria uma violação desse princípio, e portanto, um ato de idolatria. De acordo com a STV, Jesus é digno da nossa homenagem, mas não da nossa adoração, afinal, apenas Jeová é digno de adoração.
Introdução – O Argumento da STV
De acordo com a STV, o termo recorrentemente usado no NT para descrever aquilo que os cristãos chamam de adoração é na verdade um ato de reverência apenas, uma prestação de homenagem. Em Hb.1.6, por exemplo, a Tradução do Novo Mundo, a bíblia produzida pela STV, evita o termo adoração e adota o a expressão prestar homenagem: “Mas, ao trazer novamente o seu Primogênito à terra habitada, ele diz: E todos os anjos de Deus lhe prestem homenagem.” [TNM]. A justificativa para essa tradução se encontra no fato de que, de acordo com a STV, o termo προσκυνέω (proskynéö) usado nesse verso pode significar tanto adoração (no sentido religiosos) como uma reverente homenagem (sem sentido religioso).
O primeiro sentido, de acordo com a STV é claramente visto em Mat.4.10, no qual lemos: “Jesus disse-lhe então: “Vai-te, Satanás! Pois está escrito: ‘É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado.’” [TNM]. Já o segundo sentido é encontrado em 1Reis, no qual a Septuaginta [LXX], a tradução grega do AT, usa προσκυνέω para descrever a atitude de Natã diante de Davi: “Informaram imediatamente o rei, dizendo: “Aí está Natã, o profeta!” Depois ele entrou perante o rei e prostrou-se diante do rei com o rosto por terra.” [TNM].
De acordo com esses dois exemplos é possível perceber um pouco da abrangência semântica do termo προσκυνέω, que é realmente usado sem qualquer conotação religiosa. A questão é, portanto, relacionada ao critério que se define quando o sentido religioso está presente e quando o sentido não-religioso de προσκυνέω está sendo utilizado. Para a STV, o critério é simples: Se o termo προσκυνέω é usado em referência a Deus o sentido religioso deve estar presente. Se o mesmo termo é usado em referência a qualquer outra pessoa o sentido não-religioso pode ser utilizado de acordo com o contexto. Entretanto, a grande pergunta que fazemos é: Como é que a STV sabe que o termo quando aplicado a Cristo nunca tem sentido religioso? Se ambos sentidos são possíveis, qual é o critério a ser usado para definir o sentido expresso pelo autor quando Cristo é o objeto do verbo προσκυνέω?
Uma coisa é afirmar que o termo προσκυνέω pode conotar uma ação não-religiosa, outra é definir que tal conotação acontece em todas as ocasiões na qual os autores se referem a Cristo. Infelizmente, a STV não nos oferece qualquer explicação sobre o critério que usam para definir que o sentido religioso nunca acontece em referência a Cristo, e comete quatro equívocos metodológicos ao introduzir sua teoria semântica de προσκυνέω:
(1) Análise seletiva e pressuposta das evidências: Poucos versos são examinados e apenas aqueles que favorecem a interpretação esperada são tratados. A STV encobre as dificuldades para valorizar a própria conclusão e com isso induz o indouto a pensar que tal análise é satisfatória e que tal conclusão é válida. Na intenção de responder a pergunta, “Jesus recebeu adoração?“, a STV parte do ponto de vista que Jesus não pode receber adoração e analisa seletivamente a evidência léxica e comete a falácia de círculo viciosos: Jesus não recebe adoração no NT, por que Jesus não pode receber adoração.
(2) Citação fragmentada: Quase nenhum respaldo léxico é apresentado satisfatoriamente nos artigos da STV. Por exemplo, no artigo Jesus Cristo do livro Raciocínios, em Hebreus 1.6, o autor apresenta apenas parte da definição de προσκυνέω de acordo com o BAGD, e apenas a parte que contribui com o sentido favorecido pela instituição: “A palavra grega traduzida ‘adorar’ é pro·sky·né·o, que A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature diz que também era “usada para indicar o costume de prostrar-se diante duma pessoa e beijar-lhe os pés, a orla da sua veste, o chão”. (Chicago, EUA, 1979, Bauer, Arndt, Gingrich, Danker; 2.a ed. em inglês; p. 716).” A definição apresentada pelo BADG, que tem cinco diferentes nuances, é largamente mais extensa e completa do que a citação fragmentada do artigo dá a entender. Quando a STV cita pela metade para valorizar sua preferência, ela esconder do leitor evidências importantes. Por exemplo, a frase citada do BAGD foi intencionalmente reduzida para validar as conclusões teológicas da STV. É fato que a palavra προσκυνέω “usada para indicar o costume de prostrar-se diante duma pessoa e beijar-lhe os pés, a orla da sua veste, o chão“, mas a STV omite o fim da mesma sentença que afirma que tal atitude era realizada “pelos Persas na presença do seus deificados reis e os Gregos o faziam diante de uma divindade ou alguém santo“. Em outras palavras, a STV picota do léxico apenas a informação que lhe convém e esconde o fato de que o BAGD não está falando de um sentido não-religioso do termo. Na verdade, nessa frase o BAGD está enfatizando exatamente o contrário: o ato de prostrar-se diante de uma pessoa e beijar-lhe os pés era uma atitude de religiosa direcionada a divindades ou pessoas tidas como divinas.
(3) Falsa dicotomia: Outro problema latente nas publicações da STV é a falsa dicotomia: Ou A ou B; Ou o termo tem sentido religioso ou não-religioso. Será que προσκυνέω tem campo semântico tão restritivo? Será quando o autor intenciona destacar o sentido de adoração de προσκυνέω ele rejeita completamente o sentido de homenagem ou respeito? Como é possível saber se a ação de prostrar-se é exclusivamente religiosa? Novamente, a STV não apresenta qualquer evidência de que tal conclusão é plausível.
(4) Teologia como base para definição léxica: Em última análise, a STV usa a própria teologia como base para as conclusões léxicas que defende, sem qualquer fundamentação léxica ou sintática. Nenhum estudo do vocábulo é apresentado, ou qualquer discussão léxico-morfológica é apresentada. Na verdade, a evidência apresentada é presumida como suficiente e a conclusão teológica de que Cristo não pode receber adoração guia o estudo do termo de tal forma que Cristo nunca é adorado no NT.
Tendo dito isso, nós precisamos realizar um estudo de vocábulo de προσκυνέω, apresentado seu uso dentro e fora do NT para então oferecer alguns critérios contextuais e morfológicos (não teológicos) que podem auxiliar a identificação do sentido de προσκυνέω no texto bíblico.
A. Análise Diacrônica de προσκυνέω
Termos específicos de um determinado idioma normalmente mudam de sentido e uso no decorrer do tempo. A origem de um determinado termo explica nada mais do que a origem do termo, afinal, com as mudanças culturais e temporais a linguagem, que é volátil, pode atribuir novos sentidos a determinados termos.
Por exemplo, o termo χειροποίητος usado por Paulo em Ef.2.11, era usado na literatura Grega Clássica em como descrição de algo feito pelas mãos, como uma vara (Hdt.1.195) ou um até mesmo um lago (Hdt.2.149). Entretanto, na produção da LXX, o termo foi aplicado como descrição de ídolos feitos por mãos humanas (Lv.26.1, 30; Dn.5.4; 5.23, 6.28; Bel.1.5; Jdt.8.11) de tal modo que eventualmente o termo veio a significar um ídolo propriamente dito (Isa.2.18; 10.11; 16.12; 19.1; 21.9; 31.7, 46.6; Wis.14.8) sem que o uso de εἴδωλα (ídolo) fosse necessário para clarificar o sentido do termo. Em outras palavras, aquele termo que era usado para descrever qualquer coisa feita por mãos humanas no grego clássico, descreve exclusivamente a ídolos na LXX, e passa a ter significa estritamente religioso sem que qualquer intenção religiosa fosse necessária denotada por χειροποίητος no literatura Grega Clássica.
Por isso, nessa seção apresentamos uma análise diacrônica (i.e. através do tempo) para demonstrar como o termo foi usado historicamente e como diferentes sentidos emergem do mesmo. Em nossa apresentação, nós iniciamos com os mais antigos e conhecidos usos do termo e prosseguimos para o período contemporâneo e posterior do NT.
1. O Uso de προσκυνέω na Literatura Grega Clássica
A origem do termo grego προσκυνέω é incerta. Conjectura-se que o termo “originalmente não era nada mais que o termo grego para descrever um fenômeno da vida oriental” (Kittel, Gerhard, Geoffrey W. Bromiley, and Gerhard Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1964), pp.759). O termo é formado por duas palavras gregas: (1) πρός, que pode denotar o sentido de “ante de” e (2) κυνέω, que normalmente descreve o ato de “beijar”; que pode sugerir como o termo era usado. A idéia de prostrar-se é ausente se alguém assume que os termos que formam προσκυνέω são compreensivos na determinação do significado do mesmo. É provável, entretanto, que a idéia de prostrar-se seja implícita no mesmo, pois para beijar os pés de alguém é necessário curvar-se ante ele para fazê-lo. Homero (9-8 séc. a.C.), por exemplo, usa o termo para descrever a atitude de Ulisses e Agamenon que beijam a terra após uma viagem bem sucedida (Hom. Od., 4, 522; 5, 463; 13, 354), o que também mantém implícito o sentido de prostrar-se.
É por isso que na Literatura Grega Clássica [LGC] o termo προσκυνέω é normalmente usado em referência ao costume oriental de prostrar-se ante a reis e superiores, como um ato de respeito e reverência. Herodoto, por exemplo, conta de um ocasião na qual um barco em que Xerxes estava, estava indo à pique. Tomando conhecimento disso, Xerxes pergunta ao comandante se era possível se livrar de alguma coisa para evitar o naufrágio. O comandante por sua vez diz que não há nada no barco que pudesse resolver o problema, exceto eles mesmo. Ao ouvir isso Xerxes teria dito:
“Agora, você precisam provar sua dedicação pelo seu rei, pois me parece que minha salvação depende de vocês” – Ouvindo isso, eles prostraram-se e pularam no mar. O navio, agora muito mais leve, foi desse modo seguro para a Ásia. (Herodotus, Herodotus, with an English Translation by A. D. Godley, ed. A. D. Godley (Medford, MA: Harvard University Press, 1920, Hdt.8.118).
Nesse trecho, não apenas reverência é percebida no ato de prostrar-se, mas também submissão, obediência e reconhecimento de autoridade. A priori, nenhum sentido religioso é evidente aqui. Entretanto, de acordo com BDAG, com esse ato, aqueles que recebem a honra “estão sendo reconhecidos como pertencentes a um reino sobre-humano” (William Arndt, Frederick W. Danker, and Walter Bauer, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: University of Chicago Press, 2000), p.882.), o que se sabe ser verdadeiro no caso de Xerxes. Usos similares a esses são recorrentes na LGC (Appian, Mithrid. 104 §489: Pompey; Galen, Protr. 5 p. 12, 2ff ed. WJohn: Sócrates, Homero, Hipócrates, Platão).
Além desse tipo de uso, os gregos também προσκυνέω para descrever um ato de reverente de adoração a divindades. De acordo com o Liddell-Scott-Jones [LSJ] o termo é frequentemente usado para descrever o ato de “fazer reverência aos deuses ou suas imagens, cair e adoração” (Liddell, Henry George, Robert Scott, Henry Stuart Jones, and Roderick McKenzie. A Greek-English Lexicon. Oxford: Clarendon Press, 1996, p.1518). Herodoto (c. 484–425 a.C.) usa o termo recorrentemente para descrever um ato de adoração, observe:
O memorial do seu nome deixado por ele foi o pátio oeste do templo de Hefesto; lá ele colocou duas estátuas de 41 pés de altura; o mais setentrional dos mesmos os egípcios chamam de Verão, e o meridional de Inverno; o que eles chamam de Verão, eles adoram e tratam bem, mas fazer o oposto à estátua chamada Inverno. (Hdt.2.121; Herodotus. Herodotus, with an English Translation by A. D. Godley. Edited by A. D. Godley. Medford, MA: Harvard University Press, 1920.)
Uso similar é também utilizado por Ésquilo (m. 456 a.C.) que afirma:
Mas naquela noite deus despertou inverno antes do seu tempo e congelou o fluxo de sagrado Strymon de costa a costa. Muitos homens que antes tinham os deuses em nenhum estima, implorou-los, em seguida, em súplica, adorando a terra e ao céu. Mas depois que nosso anfitrião terminou sua fervorosa invocação dos deuses ele aventurou-se a atravessar a corrente ligada à gelo (Aeschylus, Aeschylus, with an English Translation by Herbert Weir Smyth, Ph. D. in Two Volumes. 1. Persians, ed. Herbert Weir Smyth (Medford, MA: Harvard University Press, 1926).
Nessa citação, a expressão “a terra e ao céu” não representa a terra e céu como lugar, mas como metonímia o autor se refere a todo o panteão grego, como clarifica a sentença seguinte. A fervorosa adoração dos deuses é a descrição dessa reverência apresentada aos deuses gregos. Esse sentido é comum e frequente na LGC e frequentemente o objeto de προσκυνέω é acusativo (cf. S.OC1654, A.Pers.499, Ar.Eq.156; A.Pr.936; Pl.R.451a; S.Ph.776), como era de se esperar desse tipo de construção. Com conceito similar, os gregos também usavam προσκυνέω em reverência a lugares sagrados (Id.El.1374; Pl.R.469b; D.19.314). Xenofonte (430-355 a.C), faz um interessante uso do termo, observe:
Como sinais de essas vitórias podemos, de fato, ainda contemplar os troféus, mas o mais forte testemunho para eles é a liberdade dos estados em que nasceram e foram criados; por que não se deve prostrar-se ante a nenhuma criatura como mestre, mas aos deuses apenas. (Xenophon, Xenophon in Seven Volumes, 3, trans. Carleton L. Brownson (Medford, MA: Harvard University Press, Cambridge, MA; William Heinemann, Ltd., London., 1922) )
Como é evidente, προσκυνέω é utilizado como terminus technicus para descrever a adoração de divindades na LGC. Do ponto de vista histórico,
o uso [de προσκυνέω] mudou [com o tempo] de um gesto externo para a atitude interior. Os primórdios devem ser procuradas nos trágicos. Assim, Neoptolemos em Soph. V 6, p 760 Phil., 656 f. manifesta o seu respeito ao prostrar-se ante a Héracles […]. A palavra torna-se mais geral mais tarde, embora o uso original tenha persistido. A deificação dos governantes, que começou a partir de Alexandre, o Grande e culminou com o culto do imperador de Roma, sem dúvida, teve uma influência decisiva na história da palavra. (Kittel, Gerhard, Geoffrey W. Bromiley, and Gerhard Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1964, pp.759-760)
2. O Uso de προσκυνέω na Septuaginta
A datação da Septuaginta (LXX) é um assunto controverso, mas sabe-se que não tenha sido produzida antes do 2 séc a.C. Nesse período, o termo προσκυνέω já era frequentemente utilizado para descrever o ato de prostar-se como um reverente ato de reconhecimento de autoridade e/ou divindade. O termo é utilizado 171 vezes e traduz o termo hebraico hwh 164x, que sugere que na LXX προσκυνέω majoritariamente inclui o sentido de prostrar-se. O termo hebraico hwh é normalmente usado para descrever o ato de prostrar-se ao chão (Gen.18.2), ante a algo (Dt.4.19) ou alguém (Gen.27.29). É também utilizado para descrever o ato de implorar (1Sm.2.36), suplicar (Gn.33.7), bem como o ato de adoração ao Deus de Israel, como um de reverência e honra, como feito aos reis humanos (Sal.5.8) ou como um ato de adoração exclusiva a YHWH (Sal.99.5). De modo interessante, na LXX προσκυνέω engloba todos esses sentidos e traduz todos esses versos.
Eventualmente, προσκυνέω também traduz o termo hebraico sagar, que normalmente denota adoração (Is.44.15-17, 19). Também traduz nashaq usado para descrever o ato de beijar (1Re.19.18), abad também usado para descrever adoração (Sal.98.7) e kara que reflete o prostrar-se diante de um rei (Est.3.2) ou do próprio Deus em reverente adoração (Sal.22.30; 72.9).
Cerca de um terço dos usos de προσκυνέω na LXX é usado para descrever o sentido de adoração (Lust, Johan, Erik Eynikel, and Katrin Hauspie. A Greek-English Lexicon of the Septuagint : Revised Edition. Deutsche Bibelgesellschaft: Stuttgart, 2003.), seja a YHWH (Gen. 22:5; 24:26, 48, 52; Ex. 4:31; 24:1; Dt. 26:10; Sal. 5:7; 29:2) ou a falsos deuses (Ex. 20:5; 23:24; 34:14; Dt. 4:19; 1Re. 22:53; 2Re. 5:18; Is. 2:8; 44:17). Isso acontece por que o termo hebraico hwh também é usado no AT como terminus technicus para veneração de divindades. Quando προσκυνέω é usado dessa forma, ele é usado como sinônimo de λατρεύεω (latreúö – adorar), com sentido estritamente religioso.
Na LXX προσκυνέω é recorrentemente usado para descrever o ato de prostar-se ante a alguém importante ou superior, como Davi o fez ante a Saul (1Sa 24:9), Bateseba e Natã ante a Davi (1Re. 1:16, 23, 31); Jacó ante a Esau (Gn. 33:3–7); os filhos de Jacó ante a José (Gn. 37:9, 10; 42:6; 43:26, 28) e Rute ante a Boaz (Rt. 2:10). O que é interessante nesses usos é que “mesmo onde προσκυνεῖν parece ser não mais do que um gesto de gratidão ou um ato de respeito afetuoso, está sempre expresso no ato o reconhecimento de aquele que recebe tal honra é instrumento de Deus” (Gerhard Kittel, Geoffrey W. Bromiley, and Gerhard Friedrich, eds., Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1964), p.761).
Um fenômeno interessante a ser observado na LXX é que eventualmente o objeto de προσκυνέω ao invés de ser acusativo, como vimos na LGC, é utilizado o dativo. Normalmente, o dativo não é utilizado como objeto direto, exceto na LXX quando utilizado com verbos de adoração como προσκυνέω. A razão para essa distinção pode ser explicada pela influência semítica na produção do texto da LXX e serve para demonstrar a liquidez do idioma. Esse uso inovador aqui, torna-se mais comum com o tempo e, como veremos a frente, desempenha um interessante papel no NT.
3. O Uso de προσκυνέω no Grego Koine (fora do NT)
O grego Koine, também conhecido como grego comum, era o idioma falado no nível de conversação informal. Esse tipo de grego é normalmente datado entre o 3 séc. a.C. e o 3 séc. d.C. Nesse período encontram-se muitos manuscritos em grego sobrevivente nos quais podemos verificar como προσκυνέω era utilizado. Destaca-se entre esses manuscritos, os Papiros de Oxirrinco, uma coleção de documentos datados do primeiro ao quarto século que contém cartas, lista de compras, porções de livros clássicos entre outras coisas.
Nesse período o sentido de respeito, reverência e submissão também é visto em προσκυνέω. Uma serva pode prostrar-se ante a seu senhor em reverente submissão (P Giss I. 1114,118 d.C.; BGU II. 42315, 2 séc. d.C). O termo é também usado sem objeto, i.e, como verbo intransitivo em descrição de atividades religiosas (P Par 4932, 161 d.C; Syll 807, P Tebt II. 4167,2 séc. d.C).
De modo geral προσκυνέω é empregado no primeiro século para descrever a veneração de divindades (cf. P Flor III. 33211) e nas inscrições Ptolomaicas, o termo jamais vem acompanhado de dativo como objeto direto (cf. OGIS 1845). Eventualmente o sentido de προσκυνέω é análogo a λατρεύεω (adoração) e a φοβέω (temor, medo, respeito) e é também usado como em referência a veneração de seres humanos, como no caso Trajano, o deificado imperador romano (cf. P Tebt II. 28622, 121–138 d.C). Como já mencionado, a adoração do imperador Romano atribuiu grande influência ao uso do termo, especialmente no primeiro século de tal modo que o προσκυνέω passou a ser usado como terminus technicus para adoração de divindades, sejam elas humanas, ídolos ou até mesmo para Deus. (Milligan, G., and James Hope Moulton. Vocabulary of the Greek Testament (Greek Edition). Peabody, MA: Hendrickson Pub, 1997, p.549).
4. O Uso de προσκυνέω na Literatura Judaica
Na literatura judaica ‘contemporânea’ do NT, nós encontramos três diferentes fontes de informação: Filo de Alexandria (20 a.C. – 30 d.C) e Flávio Josefo (37-100 d.C) e a Literatura Rabínica (org. 2 séc?). Filo de Alexandria, usa προσκυνέω majoritariamente em descrição de um ato reverente ante a alguém superior. Quando Filo descreve a criação do homem, ele afirma que era necessário que o homem fosse o último a ser criado, pois assim poderia com isso impor terror/respeito entre a criação com sua presença, e completa: “Por que convinha que, assim que eles o vissem pela primeira vez eles o admirassem e prestassem homenagem a ele como seu regente natural e mestre” (Charles Duke Yonge with Philo of Alexandria, The Works of Philo: Complete and Unabridged (Peabody, MA: Hendrickson, 1995), p. 13.). Nesse texto, προσκυνέω é usado de modo paralelo a φοβέω, como respeito, ou até mesmo a τιμάω (honra), mas não a λατρεύεω (adoração) com sentido religioso.
Entretanto, eventualmente Filo utiliza προσκυνέω em referência a adoração, veneração. Quando fala sobre o problema da pobreza, ele afirma:
E todos os pobres possuem uma terrível doença, o amor ao dinheiro, mas, não tendo eles mesmos riqueza alguma que pudesse ser digna da atenção deles, eles fixam sua admiração na riqueza alheia, e, com o propósito de oferecer adoração a ela, vão pela manhã para a casa daqueles que tem em abundância, como se fossem templos nobres onde estão indo para fazer orações, e suplicar bençãos dos seus donos como se fossem deuses. (Charles Duke Yonge with Philo of Alexandria, The Works of Philo: Complete and Unabridged (Peabody, MA: Hendrickson, 1995), p.536)
De modo interessante, em Filo προσκυνέω é usado com sentido de adoração, mas normalmente não é utilizada em referência à adoração verdadeira. Mesmo quando Filo utiliza em referência ao templo, dia da redenção ou a própria escritura (Leg. Gaj., 310; Vit. Mos., II, 23, 40) segue-se a isso uma advertência contra a idolatria (Decal., 4.).
Flávio Josefo usa προσκυνέω 98x e, diferente de Filo, segue mais de perto o padrão da LXX e o atribui à adoração de YHWH (Ant.6.55, 154; 7.95; Bell., 1.71, 2.341, 5.99), falsos ídolos (Ant. 6.2; Ag.Apion 1.239, 261) e da prática oriental de prostrar-se ante a alguém superior. É verdade que ele prefere utilizar σεβέω, τιμάω e θρησκεύεω para descrever a adoração do Deus de Israel (Ant., 3, 91; 8, 248; 9, 133; Horst, 113), mas eventualmente προσκυνέω é usado com o mesmo sentido desses termos. Em um desses casos, Josefo conta a história de Doras, que junto com os amigos e com a intenção de assaltar Jonatas,
foram até a cidade [de Jerusalém], como se estivessem indo para adorar a Deus, enquanto tinham adagas debaixo de suas roupas, com isso conseguiam se misturar com a multidão (Ant. 20:164)
Josefo frequentemente utiliza προσκυνέω em relação para descrever o ato de prostar-se ante a um rei (Ant., 6, 285; 7, 187, 349, 354) ou um profeta (Ant., 8, 331) quando menciona um fato passado, seguindo provavelmente o texto da LXX, mas o evita quando descreve uma situação do seu próprio período (Bell., 2, 336, 350, 360). Ele também emprega προσκυνέω em referência tanto ao Templo (Ant., 13, 54; 20, 49; Bell., 2, 341; 5, 381) como à Torá (Ant., 12, 114; Ep. Ar., 177 and 179), e em ambos um sentido de respeito e apreço é apresentado, não o de veneração ou adoração. Josefo também o usa para descrever a veneração de Alexandre o Grande a ὀ ὀνομα (o nome), uma provável referência ao Deus de Israel (Ant., 11, 331).
Na literatura Rabínica προσκυνέω, além de manter a idéia de respeito e reverência a pessoas importantes como aos próprios Rabis (b. Ket., 63a ; Str.-B., I, 519 on Mt. 9:18); j Pea, 1, 1 (15d, 28f); b. Sanh., 27b; Str.-B., I, 996 on Mt. 26:49), agora assume um sentido estritamente religioso não comumente encontrado em outros lugares. O termo é usado para descrever o ato da prostrar-se para orar (Str.-B., II, 259; cf. Lc.22.41). o Rabi Akiba (morr. c.134 d.C.) é descrito em várias ocasiões como se prostrando para orar (T. Ber., 3, 5 (6); Str.-B., II, 260), bem como o Rabi Gamaliel (morr. c.70 d.C.) (b. Sukka, 53a Bar; Str.-B., II, 261). Essa nuance, apresentada apenas eventualmente em outros lugares é aqui a descrição do uso religioso da mesma.
5. O Uso de προσκυνέω nos Pais Apostólicos
No período posterior ao NT, homens convertidos ao Cristianismo passaram a escrever a respeito da doutrina cristã para cristãos. Normalmente são chamados de Pais Apostólicos os líderes da igreja primitiva entre uma e duas gerações dos apóstolos, como por exemplo Clemente de Roma, Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna. Também se inclui alguns textos cristãos primitivos entre eles, como o Pastor de Hermas, Didaquê e a Carta a Diogeneto, pelo fato de terem sido escritas durante esse período.
Nesses documentos προσκυνέω tem sentido exclusivo de adoração, ou seja, denota o mesmo sentido de λατρεύεω, e normalmente descreve a adoração de deuses falsos, seguindo o costume de Filo e Josefo. Clemente de Roma (morr. c. 99 d.C.), por exemplo, conta que no passado “éramos deficientes de conhecimento, adorando pedras, madeira, ouro, prata e bronze produto de mãos humanas; e nossa vida era nada mais do que morte” (2Cl.1.6). Em outro lugar na mesma carta, Clemente também afirma que os cristãos “não devem adorar deuses mortos” (2Cl.3.1). Do mesmo modo, na carta a Diogeneto lemos seu autor alerta seus leitores sobre os ídolos, feitos por mãos humanas, que eles adoram (Diog.2.4-5). O mesmo pode ser dito do que encontramos no livro Martírio de Policarpo, que o descreve como o mestre de Esmina: “Este é o mestre da Ásia, o pai dos Cristãos, e aquele que destruiu os seus deuses, e que vem ensinando a não sacrificar ou adorar os deuses” (MPo 12.2).
Apenas uma única vez προσκυνέω não é usado sem referência a falsos ídolos. No livro que descreve o Martírio de Policarpo, o autor descreve um discurso de Policarpo nos seguintes termos:
“Por que a Ele [Cristo], nós adoramos como Filho de Deus, mas aos mártires, como discípulos e seguidores de Cristo, nós dignamente os amamos por sua extraordinária afeição ao nosso Rei e Mestre, de quem nós também seremos feitos parceiros e co-díscípulos com eles” (MPo 17.3).
Nesse uso, fica evidente a distinção entre respeito, homenagem e reverência adoração. Jesus Cristo era adorado, os apóstolos, discípulos e mártires apenas respeitosamente amados.
6. Sumário e Conclusão
Como fica evidente em nossa demonstração acima, o termo προσκυνέω foi usado com significativa e ampla gama de significados. Ao que parece, o termo foi usado primariamente para descrever o ato de beijar, como sinônimo de κυνέω. Em Homero, o ato de beijar o chão também incluia o conceito de prostrar-se que com o tempo parece ter se tornado a ênfase do termo.
O ato de prostar-se também passou a incluir o sentido de respeito, submissão e reconhecimento de superioridade ante autoridades. Apenas eventualmente e especialmente na LXX, o termo é usado para descrever o ato de prostrar-se para suplicar favor ou implorar ante a uma autoridade ou alguém reconhecido como superior, ou até mesmo entre iguais com a implícita atitude de humildade.
Entretanto, προσκυνέω é recorrentemente usado para descrever um ato de adoração, seja entre os pagão, seja entre os judeus. Na LXX e na literatura judaica o termo descreve tanto a verdadeira adoração de YHWH como a adoração de falsos deuses. Em Josefo e Filo o termo majoritariamente é usado para descrever a falsa adoração. Entre os gregos, o termo descreve a adoração de entidades divinas, seres humanos, ídolos, templos e objetos sagrados e serve como terminus technicus para adoração. Posteriormente, o termo passa a descrever também o ato de prostrar-se para orar, como descrição estritamente religiosa mas desprovida de implícito conceito de adoração ou veneração. Afirmar que no período do NT o termo era desprovido de sentido religioso, ou que continha sentido religioso apenas quando aplicado a Deus, é evidentemente contrária a evidência apresentada.
O que é interessante em nossa análise é notar que o sentido do termo προσκυνέω no período próximo à produção do NT é usado largamente como descrição de atividades religiosas. É digno de nota que os cristãos posteriores ao NT usaram o termo exclusivamente com sentido religioso de adoração. Também fica evidente que em alguns casos o sentido de adoração, submissão e respeito aparecem na mesma ocasião, demonstrando que a dicotomia apresentada pela STV é falsa e deve ser rejeitada. Também vimos que o campo semântico do termo é muito mais abrangente que o assumido pela STV, o que demonstra que a análise das evidências feita por essa instituição trata-se apenas de uma super-simplificação desnecessária.
B. O Uso de προσκυνέω no NT
Προσκυνέω é 60x no NT em 54 versos, sendo 22 versos em Apocalipse, 13 em Mateus, 7 em João, 4 em Atos, 3 em Lucas, 2 em Marcos, 2 em Hebreus e 1 em 1Coríntios. Diferentes sentido são expressos pelo termo e, portanto, a análise atenta dos mesmos é necessária. Quando προσκυνέω é usado sem objeto o termo é usado como terminus technicus para descrever o ato de adoração ao Deus Verdadeiro (Jo.4:20; 12:20; At.8:27; 24:11; Ap.11:1). Normalmente προσκυνέω tem como objeto um termo no acusativo, como esperado nesse tipo de construção. Entretanto, seguindo o uso apresentado na LXX, também encontra-se no NT o uso de dativo como objeto direto de προσκυνέω. Esse fenômeno não é incomum no NT, aliás, verbos como πιστέω (crer, confiar), ύπακούω (obedecer), διακονέω (servir), λατρέυω (adora), εὐχαριστέω (agradecer) e ἀκολουθέω (seguir) frequentemente são acompanhados por dativos como objetos direto. De modo interessante, são todos verbos relacionados a algum comportamento associado a Deus. O dativo talvez tenha sido preferido com esses verbos por que é o caso grego que sugere relacionamento pessoal, e portanto, apropriado para descrever atividades religiosas dirigidas a Deus.
É interessante notar que no NT a adoração apresentada com προσκυνέω quando seguida de acusativo, normalmente descreve o tipo de adoração falsa (Ap.9.20; 13.8, 12; 14.9, 11; 20.4), ao passo que a adoração a Deus é normalmente descrita com dativo (Jo.4.21; 1Cor.14.25; Ap.4.10; 7.11; 11.16; 19.10; 22.9). Entretanto, esses usos não são exclusivos, afinal a adoração a Deus também é apresentada com acusativo (Mat.4.10), do mesmo modo que a adoração de falsos deuses também é apresentado com dativo (At. 7.43; Ap.13.4; cf. v.15; 16.2; 19.20). Entretanto, é possível que o dativo seja usado quando uma relação pessoal está em vista, ao passo que o acusativo apresenta uma adoração mais distante. (Wallace, Daniel B. Greek Grammar Beyond the Basics. Enlarged ed. (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1997), pp.172-173). Em outras palavras, quando o dativo é usado o sentido de adoração pessoal é enfatizada ao passo que com o acusativo a adoração pessoal não é a ênfase da descrição.
1. Προσκυνέω Aplicado a Deus
Cerca de 23 vezes προσκυνέω é usado em relação a Deus no NT (Mat 4.10; Lc.4.8; Jo.4.21, 23*2; 4.20*2, 24*2; 12.20; At.8.27; 24.11; 1Cor.14.25; Hb.11.21; Ap.4.10; 7.11; 11.16; 11.1; 14.7; 15.4; 19.4, 10; 22.9). Em todos esses texto, sem excessão, o sentido de προσκυνέω é de adoração.
2. Προσκυνέω Aplicado a Ídolos
Apenas uma vez no NT προσκυνέω é usado em referência a idolatria: Em Atos 7.43, lemos: “τοὺς τύπους οὓς ἐποιήσατε προσκυνεῖν αὐτοῖς” (imagens que vocês fizeram com o objetivo de adorar-las). Dificilmente προσκυνέω teria outro sentido aqui. Vale a pena notar que o dativo é utilizado como objeto nessa construção, ainda que a adoração seja completamente desprovida de pessoalidade. Talvez a intenção fosse um vínculo pessoal com a divindade.
3. Προσκυνέω Aplicado a Seres Humanos
No NT, ao contrário do que se pensa é apenas raramente aplicado a seres humanos, ao contrário da LXX, Josefo e Filo que o usam dessa forma com frequência. Três casos são interessantes a serem observados aqui: (1) Em Mat.18.26 lemos ὁ δοῦλος προσεκύνει αὐτῷ λέγων (o servo prostrou-se ante ele dizendo). Nesse caso vemos um uso paralelo àquele encontrado na LXX (2Sam.18.28) no qual o ato de prostrar-se é seguido de uma súplica. Nesse texto, alguns conceitos estão implícitos: (a) Existe da parte daquele que se prostra o reconhecimento da superioridade do outro, haja visto que ele é apresentado como servo ao passo que aquele diante quem ele se prostra é o senhor; (b) Existe por parte do servo um interesse genuíno e pessoal, como o dativo como objeto direto parece sugerir; (c) Não está presente qualquer conotação de devoção ou adoração, mas está implícito que o servo está sujeito à autoridade do seu senhor.
(2) Em Ap.3.9 lemos: “ἰδοὺ ποιήσω αὐτοὺς ἵνα ἥξουσιν καὶ προσκυνήσουσιν ἐνώπιον τῶν ποδῶν σου” (Eu farei com que eles venham prostrem-te ante a seus pés). Embora em Apocalipse a maioria dos usos de προσκυνέω são relacionados à adoração, é altamente improvável que esse seja o sentido aqui. Também é importante notar que o texto não fala de prestação de homenagem. A ênfase do texto recai sobre o devido reconhecimento de que a igreja de Filadéfia era de fato o povo de Deus. A sinagoga de Satanás, os seguidores dos Nicolaítas, um dia prostar-se-ão aos pés da Igreja da Filadéfia, não como adoração, nem prestação de homenagem, como derrotados. Eles serão humilhados por Deus e como derrotados colocados aos pés dos cristãos que mantém a sagrada doutrina dos apóstolos. Aqui προσκυνέω se refere ao ato de prostrar-se, mas esse ato é produzido por Deus contra a vontade dos mesmos, sugerindo sujeição não prestação de homenagem.
(3) Em Atos 10.25 lemos ὁ Κορνήλιος πεσὼν ἐπὶ τοὺς πόδας προσεκύνησεν (Cornélio prostrou-se aos seus [de Pedro] pés e adorou/prestou homenagem). Embora προσκυνέω tenha aqui sido em referência a um ser humano, dificilmente o sentido mais natural do termo está em uso. De fato, a expressão πεσὼν ἐπὶ τοὺς πόδας já explicita o fato de que Cornélio estava aos pés de Pedro. Portanto, προσκυνέω não inclui aqui, em nenhum sentido, o conceito de prostrar-se. Em que sentido então o termo é usado aqui? É difícil precisar se esse é um ato apenas de reverência ou adoração, entretanto, era algo que Pedro sentiu-se compelido a rejeitar (v.26). Caso fosse apenas uma homenagem, era algo que colocaria Pedro em um patamar que não lhe pertencia. Aliás, pela resposta de Pedro, fica evidente que esse é o caso: Ἀνάστηθι· καὶ ἐγὼ αὐτὸς ἄνθρωπός εἰμι (Levanta-te, pois eu sou homem como você). O ato de Cornélio foi entendido por Pedro como se Cornélio reconhecesse Pedro ao menos como alguém sobre-humano, uma atitude plenamente possível para um gentio, mesmo um piedoso como Cornélio. Se Pedro tivesse entendido a ação de Cornélio de modo equivocado, nós esperaríamos a explicação de Cornélio dizendo que era apenas um ato de reverência e nada além disso. Mas, não encontramos no texto nada parecido com isso. Tudo o que se pode dizer com segurança é que a atitude de Cornélio era algo que Pedro deveria rejeitar.
Vale a pena notar que resposta similar a essa foi dada por Paulo e Barnabé em rejeição ao reconhecimento de que eles eram deuses encarnadados em Listra (At.14.8-15): Ἄνδρες, τί ταῦτα ποιεῖτε; καὶ ἡμεῖς ὁμοιοπαθεῖς ἐσμεν ὑμῖν ἄνθρωποι (Homens, que fazem? Nós somos de natureza humana como vocês). Ou seja, a atitude de Cornélio de alguma forma promoveu em Pedro a mesma reação que a multidão de Listra provocou em Paulo e Barnabé. Portanto, é possível que Cornélio aqui tenha oferecido a Pedro mais do que apenas respeito, ainda que não o considerasse como um deus. Certamente era algo ofensivo para Pedro receber, e não seria equivocado traduzir προσκυνέω como adoração, ainda que uma adoração desconexa de interesse pessoal. Favorece essa conclusão o fato de que o προσκυνέω não tem objeto direto explícito no texto, o que sugere que uma construção comum é esperada aqui com acusativo. Caso o interesse pessoal estivesse presente, o dativo deveria ser explícito.
4. Προσκυνέω Aplicado a Seres Angelicais
Apenas em duas ocasiões προσκυνέω é usado no NT em referencia a seres angélicos: (1) Em Ap.19.10 nós lemos: “καὶ ἔπεσα ἔμπροσθεν τῶν ποδῶν αὐτοῦ προσκυνῆσαι αὐτῷ” (Então caí prostrado ante aos seus pés para adorá-lo). Como no caso de Atos.10.25 a cena inicia com com o verbo πίπτω (cair, prostrar-se) o que sugere que προσκυνέω não denota o ato físico de prostrar-se, mas a ação realizada quando se está prostrado. Também é evidente pela expressão ἔμπροσθεν τῶν ποδῶν (ante aos seus pés) que João, o apóstolo, jogou-se aos pés do anjo com o objetivo de adorá-lo. Nesse verso é impossível que o sentido seja diferente desse, afinal em sua repreensão a João o anjo diz: “τῷ θεῷ προσκύνησον” (Adore a Deus). Note que o objeto de ambos os verbos é dativo (αὐτῷ; τῷ θεῷ) que sugere que tanto a atitude de Pedro, quanto a atitude sugerida pelo anjo foram carregadas de interesse pessoal.
(2) Semelhantemente, em Ap.22.8 nós lemos: “ἔπεσα προσκυνῆσαι ἔμπροσθεν τῶν ποδῶν τοῦ ἀγγέλου” (caí aos pés do anjo para adorá-lo). Novamente a ação é introduzida por πίπτω, o que sugere que προσκυνέω não é usado com o sentido de prostrar-se apenas. Novamente, João prostra-se ante ao anjo com o objetivo de adorá-lo e novamente é por ele repreendido com a expressão “τῷ θεῷ προσκύνησον” (Adore a Deus). Novamente, o sentido aqui claramente sugere adoração, claramente rejeitada pelo anjo que sabe que somente Deus pode receber adoração.
É importante notar que a dupla reação angélica em Apocalipse é deveras similar àquela encontrada em Pedro em Atos, do mesmo modo que a ação de João para com o anjo em Apocalipse é deveras similar àquela encontrada em Cornélio em relação a Pedro. Isso favorece nossa sugestão de que não seria correto traduzir προσκυνέω em Atos como um ato de adoração.
5. Προσκυνέω Aplicado a Jesus Cristo
Προσκυνέω é usado em referência a Jesus Cristo 16x no NT (Mat.2.2, 8, 11; 8.2; 9.18; 14.33; 15.25; 20.20; 28.9, 17; Mc.5.6; 15.19; Lc.24.52; Jo.9.38; Hb.1.6; Ap.5.14). Como já vimos esse termo grego carrega ampla gama de significado e no período do primeiro século προσκυνέω era usado comumente para adoração inclusive dos Imperadores Romanos. Embora, a STV esteja convicta que em todas as ocasiões que προσκυνέω é aplicado a Cristo o sentido do termo significa apenas prestar homenagem, nós acreditamos que tal conclusão não corresponde a evidência.
a. Προσκυνέω Possivelmente Como ‘Prestar Homenagem’
Em Mc.15.19 nós lemos que os soldados que afligiam a Cristo “καὶ τιθέντες τὰ γόνατα προσεκύνουν αὐτῷ” (ajoelhavam-se e adoravam/prestam homenagem a Ele). Nesse texto, qualquer que seja o sentido que se atribua a προσκυνέω sabe-se que trata-se de um ato de ironia. Cristo poderia estar sendo reverenciado como o rei (cf. v.15), ou adorado como o tal, ou até mesmo homenagens poderiam ser prestadas a Ele. Entretanto, sabe-se pelo contexto que a ação dos soldados romanos era desprovida de real intenção. Em outras palavras, a partir desse verso, pouco se pode dizer sobre a possibilidade de Jesus receber ou não adoração.
b. Προσκυνέω Como um Ato de Reverência/Submissão
Em pelo menos 5 ocasiões (Mat.8.2; 9.18; 15.25; 20.20; Mc.5.6) os evangelistas apresentam histórias que de súplica ou até mesmo desespero. Caso similares a esses são encontrados tanto na LGC, LXX e outras narrativas apresentadas por Josefo. Em Mat.8.2 vemos que o o leproso “ἐλθὼν προσεκύνει αὐτῷ λέγων” (veio e prostrando-se diante dele disse). A narrativa aqui nos apresenta o caso de alguém crente e esperançoso para receber a cura para seu problema. A descrição desse leproso como vindo (ἔρχομαι) até Cristo, é apresentado em várias ocasiões onde seu poder é esperado (Mat.9:18; 15:25; 20:20). Pessoas vinha até Cristo desesperadas (Mat.9.18; 15.25; cf. Mc.5.6) com a expectativa que Ele pudesse resolver seu problemas. Nesses casos, parece que a narrativa não apresenta a ação descrita por προσκυνέω como um ato de adoração, muito menos de homenagem, mas de submissão diante de uma necessidade expressa por meio de súplica. Descreve um ato de humildade, inferioridade e impotência. Existe a crença de que aquele diante de quem se solicita o favor é capaz de realizar o pedido, na mesma intensidade que vemos o servo solicitar perdão do seu Senhor (Mat.18.26). A esperança por um milagre não necessariamente aponta para o reconhecimento de divindade em Cristo, pois em ocasiões de desespero qualquer remédio é bom remédio. Em Mat.20.20, vemos a solicitação da mãe dos filhos de Zebedeu, que reverentemente ajoelha-se diante de Cristo. Dificilmente nesse caso encontramos um ato de adoração ou prestação de homenagem. É um ato de reverência ante a autoridade.
c. Προσκυνέω Como um Possível Ato de Adoração ao Cristo Encarnado
Na narrativa que Mateus apresenta para o nascimento de Cristo, προσκυνέω é usado 3x (Mat.2.2, 8, 11) e de fato é muito difícil classificar como esses versos devem ser entendidos. Em primeiro lugar, sabemos que προσκυνέω foi usado como forma de reverência a reis em textos na LGC e LXX e que era um uso comum no primeiro século, como visto nos papiros de Oxirrinco e nos escritos de Josefo e Filo, e portanto tal uso aqui não seria incorreto. Entretanto, nenhum exemplo se encontra desse tipo de ato reverente perante uma criança. Em segundo lugar, é difícil precisar de onde são os magos que vieram do oriente, para entender que tipo de costumes poderiam ter que pudesse explicar o que está acontecendo. Infelizmente, a narrativa bíblica não nos oferece informação suficiente para definirmos com clareza a origem e visão dos magos a respeito desse ato apresentado como o termo προσκυνέω.
Entretanto, alguns detalhes textuais merecem nossa atenção:
(1) Em Mat. 2.2 lemos: “καὶ ἤλθομεν προσκυνῆσαι αὐτῷ” (e nós viemos para adorar/prestar homenagem a ele). O verbo ἔρχομαι é usado aqui antes de προσκυνέω, e essa linguagem possivelmente aponta para um evento religioso onde o poder de Cristo é esperado (cf. Mc.5.33), ou até mesmo reconhecido. O objeto de προσκυνέω aqui é dativo, o que sugere, como já vimos, um sentido de pessoalidade envolvida.
(2) Em Mat. 2.8 lemos que Herodes diz: “ὅπως κἀγὼ ἐλθὼν προσκυνήσω αὐτῷ” (para que eu mesmo vá e adore/preste homenagem a ele). Sabe-se ao certo que as intenções de Herodes são diametralmente opostas a dos magos, mas usando de ironia Herodes usa a mesma construção que os Magos usaram para descrever o ato intencionado ante ao rei dos Judeus. O mesmo verbo (ἔρχομαι) introduz προσκυνέω e ele também opta pelo dativo como objeto do ato de homenagem/adoração. O que quer que os Magos queriam dizer com tal construção, Herodes sagazmente dá a entender que ele tem o mesmo plano.
(3) Em Mat.2.11, entretanto, vemos que o ato realizado pelos Magos é paralelo a vários outros relatos que descrevem um ato de adoração: “καὶ ἐλθόντες εἰς τὴν οἰκίαν (…) καὶ πεσόντες προσεκύνησαν αὐτῷ” (E indo até a casa (…) prostraram-se e adoraram/prestaram homenagem a ele). (a) Novamente ἔρχομαι é utilizado como introdução da cena e o objeto da ação descrita por προσκυνέω é dativo. (b) Entretanto, de acordo com a narrativa, os Magos se prostraram ante à criança antes de realizar a ação descrita com προσκυνέω. Como já vimos, esse mesmo tipo de construção foi vista na ação de Cornélio para com Pedro (At.10.25), de João para com o anjo (Ap.19.10; 22.8) e sabemos que existem fortes evidências que apontam para essa descrição como um ato de adoração. Nesses três casos πίπτω introduz a ação descrita por προσκυνέω cujo objeto é dativo. Vale acrescentar que a adoração a Deus é apresentada nesses termos em vários lugares no NT (Mat.4.9; 1Cor.14.25; Ap.4.10; 5.14; 7.11; 11.16; 19.4).
Diante disso, é possível entender que a ação realizada pelos Magos aqui aponta para um ato de adoração. Entretanto, não deve-se concluir disso que os Magos entendem a Cristo (criança) como Deus digno de adoração. Afinal, nada sabemos sobre o contexto de onde esses Magos e sua cosmovisão sobre a divindade. Por outro lado, podemos dizer que tanto quanto Mateus nos deixa conhecer desse Magos através de sua narrativa, o ato realizado pelos Magos é um ato de adoração. Tal ato estaria completamente dentro do padrão estabelecido pelo texto, afinal Cristo já havia sido chamado de Emanuel, Deus conosco (Mat.1.23).
Durante o ministério de Cristo, apenas dois versos parecem sugerir que Cristo foi adorado. Em Jo.9.38 lemos a resposta do homem cego, que depois de curado é convidado por Jesus para crer no Filho do Homem que disse: “Πιστεύω, κύριε· καὶ προσεκύνησεν αὐτῷ” (Eu creio, senhor e O adorou/prestou homenagem a ele). É realmente difícil definir o sentido de προσκυνέω nesse texto, e ambas traduções poderiam ser aceitas como válidas. Em defesa de uma tradução como “prestou homenagem a Ele“, ou “O reverenciou” apontamos o uso do vocativo κύριε (senhor), uma forma respeitosa de se dirigir a alguém investido de autoridade. Nesse caso, é possível que a resposta do cego a Cristo seja revestida de honra ou reverência. Entretanto, esse tipo argumento não é, de forma nenhuma definitivo. Aliás, contra essa conclusão, três detalhes devem ser notados: (1) João usa προσκυνέω somente com sentido de adoração (Jo.4.20*2; 21, 22*2, 23*2, 24*2; 12.20); (2) O ato de prostrar-se é antecedido por uma confissão de fé em Cristo como o Filho do Homem, que no evangelho de João representa a revelação encarnada de Deus que deu sua vida pelo mundo (cf. Jo.3:13–14; 5:53; 6:27; 12:23; 13:31); (3) Em João, esse é o único uso do termo em referência a alguém que não o Deus Pai. Assumindo que todas as outras ocasiões o termo descreve a genuína adoração do Pai em João, é bem possível que João aqui usa o mesmo conceito para descrever Cristo como aquele que é digno de receber adoração. Em outras palavras, ainda que alguém defenda a tradução “prestou homenagem” ou “O reverenciou” como possíveis, é bem provável que o texto aqui aponte para um ato de adoração a alguém reconhecido como divino.
Em Mat.14.33 nós lemos: “οἱ δὲ ἐν τῷ πλοίῳ προσεκύνησαν αὐτῷ λέγοντες, Ἀληθῶς θεοῦ υἱὸς εἶ” (Então, aqueles que estavam no barco, o adoraram dizendo: És verdadeiramente o Filho de Deus). Nesse verso a expressão Ἀληθῶς θεοῦ υἱὸς εἶ (És verdadeiramente o Filho de Deus) descreve o conteúdo expresso por προσκυνέω nesse texto. Dificilmente poder-se-ia dizer que essa afirmação trata-se de uma prestação de homenagem. Aliás, nesse texto, traduzir προσκυνέω como prestação de homenagem não parece adequado. Eles estão declarando que Cristo, aquele que andou sobre as águas, é verdadeiramente o Filho de Deus. É bem provável que esse é um caso de adoração ao Cristo encarnado.
d. Προσκυνέω como um Ato de Adoração do Cristo Ressurreto
Depois de usa morte e ressurreição, em três ocasiões προσκυνέω é usado em referência a Cristo, e pelo contexto, dois indicam um ato de adoração reverente a Jesus Cristo. Em Mat.28.9 nós lemos: “αἱ δὲ προσελθοῦσαι ἐκράτησαν αὐτοῦ τοὺς πόδας καὶ προσεκύνησαν αὐτῷ” (Então, elas aproximaram-se dele e abraçando-lhe os pés o adoraram). Nesse texto, o ato de prostrar-se é descrito pela expressão ἐκράτησαν αὐτοῦ τοὺς πόδας (lit. pegaram os pés dele) e, portanto προσκυνέω não descreve tal ato. Dificilmente nesse contexto o sentido de prestar homenagem é apropriado. Cristo não está sendo apresentado como um rei, não está sendo descrito como exigindo algo, nem encontramos na cena o desejo desesperado de ajuda, como vimos em outros texto. Nesse texto, vemos a reação das mulheres diante da notícia da ressurreição de Cristo dada pelo próprio Cristo ressurrecto. Da mesma forma que diante de um evento além da compreensão humana levou João a prostrar-se ante ao anjo em adoração, essas mulheres prostraram-se ante ao Cristo ressurreto em adoração. Entretanto, diferente do caso do anjo que repreendeu a João pelo ato indevido, Jesus consente com o fato. De duas uma, ou ele está recebendo algo indevido, e portanto, deve ser descrito como um impostor, ou ele aceita dos homens o que somente Deus pode aceitar. Note também o dativo como objeto direto (αὐτῷ) novamente usado aqui. Ao ler esse texto honestamente, dificilmente se escapa da conclusão de que a adoração de Cristo está em vista aqui.
Pouco à frente, quando os discípulos reencontram a Cristo, a reação é similar, mas não generalizada. Em lemos: “ἰδόντες αὐτὸν προσεκύνησαν, οἱ δὲ ἐδίστασαν” (quando o viram o adoraram, mas alguns hesitaram). O verbo usado aqui para descrever o que algumas traduções definem como dúvida é διακρίνομαι que não descreve um ato de descrença, mas de hesitação (cf. At.10.20) A hesitação apresentada aqui é interessantíssima, afinal são os discípulos que O conheciam intimamente parecem reagir de modo distante de Cristo. Nem todos duvidam nessa cena, mas o ato de adoração apresentado tem acusativo como objeto direto, o que sugere uma certa distância no ato da adoração. A cena é similar a encontrada no v.9, mas a distinção é também gritante: Os apóstolos, que deveriam recebê-lo devidamente, aqui são apresentados como em hesitação. Tal hesitação pode ter sido fruto de um possível medo de como Cristo reagiria diante da adoração deles, ou até mesmo de um problema religioso, no qual o pano de fundo judaico estritamente monoteísta estivesse em jogo. Mas, é mais provável que eles estavam confusos sobre como se portar diante do que estava acontecendo diante dos olhos deles. Entretanto, é importante notar a distinção que o texto oferece: Aqueles que adoraram não são os mesmos que hesitaram. Apenas alguns dentre eles hesitaram. Em outras palavras, ainda que a reação não tenha sido generalizada, dificilmente se encontra aqui um ato de prestar de homenagem. Do mesmo modo, não é possível ser categórico e afirmar que a atitude dos apóstolos aqui é uma atitude religiosa de adoração a Jesus Cristo.
Por fim, em Lc.24.52 nós lemos: “αὐτοὶ προσκυνήσαντες αὐτὸν” (Eles O adoraram). Nesse texto é indubitável que o sentido é de adoração por uma série de fatores contextuais: (1) O ato descrito como προσκυνέω é antecedido pelo assunção de Cristo aos céus (v.51). A expressão que Lucas usa aqui para descrever o fato é “διέστη ἀπʼ αὐτῶν” (Ele os deixou) é usada no evangelho é usado para descrever a partida de visitantes sobre-humanos (1:38; 2:15; 9:33; At.10:7; 12:10; cf. Gen 17:22; 35:13; Jz.6:21; 13:20); (2) O ato de deixar os discípulos é descrito como sendo a esfera celestial (ἀνεφέρετο εἰς τὸν οὐρανόν). Jesus não apenas os deixou de modo paralelo ao caso de anjos, mas seu destino foi aqui definido. Em outras palavras, enquanto esses discípulos recebiam de Cristo sua bênção, ele os deixou e foi assunto aos céus. Diante desse ato extra-ordinário os discípulos o adoraram. Seria estranho encontrar uma prestação de homenagem se aquele a quem se presta esse sinal de referência não estivesse presente.
e. Προσκυνέω como um Ato de Adoração do Cristo Exaltado
Dois textos descrevem o ato de adoração atribuída ao Cristo Exaltado. Em Ap.5.14, nós lemos: “οἱ πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν” (Os anciãos prostrando-se adoraram). Vários fatores favorecem a identificação de Cristo como Aquele que é adorado aqui: (1) O Cordeiro é o tema de todo o capítulo, mas especialmente nos versos 12-14. Observe que no verso 12 nós lemos: “Ἄξιόν ἐστιν τὸ ἀρνίον τὸ ἐσφαγμένον λαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν” (Digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra e louvor). O Cordeiro é digno de recebe o louvor, da mesma forma que o próprio Deus o é (Ap.7.12): “ἡ εὐλογία καὶ ἡ δόξα καὶ ἡ σοφία καὶ ἡ εὐχαριστία καὶ ἡ τιμὴ καὶ ἡ δύναμις καὶ ἡ ἰσχὺς τῷ θεῷ ἡμῶν” (louvor, glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força sejam ao nosso Deus); (2) O Cordeiro é identificado com Deus no ato de adoração de todas as criaturas, no céu,na terra, debaixo da terra, no mar e em tudo o que neles existe no v.13: “Τῷ καθημένῳ ἐπὶ τῷ θρόνῳ καὶ τῷ ἀρνίῳ ἡ εὐλογία καὶ ἡ τιμὴ καὶ ἡ δόξα καὶ τὸ κράτος εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων” (Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, honra, glória, e poder para o todo sempre). Tudo aquilo que fora criado oferece seu louvor a Deus, que se assenta no trono, e a Cristo. (3) Por fim, os próprios anciãos prostram-se ante ao Cordeiro e o adoram. A força do texto é tão intensa que até mesmo a Tradução do Novo Mundo entende que προσκυνέω aqui deve ser entendido como um ato de adoração. Em uma nota, entretanto, associam esse texto com Mt.4.10!
Por fim, em Hb.1.6 lemos: “προσκυνησάτωσαν αὐτῷ πάντες ἄγγελοι θεοῦ” (Todos os anjos de Deus o adorem). Esse é um daqueles textos controvertidos, afinal o texto poderia ser traduzido como “prestem homenagem” e a tradução até poderia ser entendia como correta. Entretanto, se προσκυνέω aqui refere-se apenas a uma homenagem, como de alguém diante de um superior, deve-se lembrar que Aquele que recebe tal homenagem deve ser entendido como superior aos anjos. Contudo, como podemos saber como προσκυνέω é usado aqui? Sabe-se que nesse caso o autor de Hebreus está citando um outro texto, assim como o faz diversas vezes em outras ocasiões nesse mesmo capítulo. A pergunta então é: A que texto o autor de Hebreus está citando ou aludindo aqui? A verdade é que o autor de Hebreus está citando o Cântico de Moisés.
Três textos da LXX apresentam o Cântico de Moisés: (1) Dt.32.43, que diz: “προσκυνησάτωσαν αὐτῷ πάντες υἱοὶ θεοῦ” (todos os filhos de Deus O adorem). Nesse verso encontramos um texto deveras similar àquele encontrado em Hb.1.6, com duas diferenças: (a) Em primeiro lugar o texto fala sobre υἱοὶ θεοῦ (filhos de Deus) e não a respeito dos ἄγγελοι θεοῦ (anjos de Deus), mas deve-se lembrar que as duas expressões são intercambiáveis na LXX. (b) Em segundo lugar, Aquele que recebe a adoração aqui é o próprio Deus. (2) Odes 2.43: “προσκυνησάτωσαν αὐτῷ πάντες οἱ ἄγγελοι θεοῦ” (todos os anjos de Deus O adorem). O texto aqui é idêntico ao encontrado em Hebreus, à excessão do artigo οἱ antes de ἄγγελοι, e é uma re-edição do texto de Dt.32.43. Novamente aqui a distinção é que Aquele que recebe a adoração é o próprio Deus. (3) Sal.96.7 (97.7): “προσκυνήσατε αὐτῷ πάντες οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ” (Todo os Seus anjos O adorem). Nesse verso encontra-se a referência aos anjos, mas προσκυνέω aqui está na segunda pessoa do plural ao passo em todos os outros casos o verbo imperativo está na terceira pessoa do plural. Entretanto, novamente aqui o objeto da adoração é o próprio Deus.
Todos os textos mencionados acima são alguma forma uma variação do Cântico de Moisés, um importante documento judaico frequentemente aludido no NT (Rom.10.19; 11.11; 12.9; 15.10; 1Cor.10.20, 22; Fp.2.15; Lc.21.22; Ap.6.10; 10.5; 15.3; 18.20; 19.2; cf. 4Mac.18.18-19) O que é interessante é que os texto citados acima tem duas características em comum: (1) Nos três versos προσκυνέω é indubitavelmente usado com o sentido de adoração e (2) O objeto de προσκυνέω nos três versos é o próprio Deus. Em outras palavras, o autor de Hebreus alude a um texto extremamente bem conhecido pela igreja primitivo no qual o sentido do texto era relacionado à adoração do próprio Deus e o aplica a Jesus Cristo. Dificilmente uma declaração mais clara da divindade de Cristo e do fato de que ele é digno de ser adorado pode ser oferecida. De fato, o contexto de Heb.1 suporta largamente essa conclusão, afinal, Ele já tinha sido apresentado como Criador (1.2), a expressão exata da essência (ὑπόστασις) de Deus (1.3), o sustentador de todas as coisas (1.3), tendo um nome superior ao dos anjos (1.4), de tal modo que os próprios anjos, sob ordenação divina o adoram.
C. Conclusão
Como demonstramos em nossa análise diacrônica, no período imediatamente anterior à produção do NT προσκυνέω é largamente usado para descrever um ato de adoração. Também vimos que no período imediatamente posterior ao NT, especialmente na literatura cristã, προσκυνέω é usado exclusivamente com sentido de adoração. Portanto, não nos surpreende encontrar no NT tantos usos de προσκυνέω como um ato de adoração.
Deus é adorado 23x no NT com προσκυνέω (Mat 4.10; Lc.4.8; Jo.4.21, 23*2; 4.20*2, 24*2; 12.20; At.8.27; 24.11; 1Cor.14.25; Hb.11.21; Ap.4.10; 7.11; 11.16; 11.1; 14.7; 15.4; 19.4, 10; 22.9). Todas as vezes que a adoração a anjos é apresentada no NT προσκυνέω é usado (Ap.19.10; 22.8). Até mesmo o ato religioso de idolatria é apresentado, mesmo que uma única vez, como o termo προσκυνέω (At.7.43). É por isso que seria altamente improvável que todas as vezes προσκυνέω fosse aplicado a Cristo ele fosse completamente desprovido de atitude religiosa. Entretanto, das 16x que προσκυνέω é usado em referência a Cristo, certamente 6 não descrevem um ato de adoração (Mat.8.2; 9.18; 15.25; 20.20; Mc.5.6; 15.19) e pelo menos outras seis ocasiões o sentido de adoração é apenas possível (Mat.2.2, 8, 11; Mat.14.33; Mat.28.17; Jo.9.38), muito embora em alguns desses texto tal sentido seja altamente provável. Por outro lado, em 4 ocasiões o sentido de adoração é indubitável (Mat.28.9; Lc.24.52; Hb.1.6; Ap.5.14). Nesses textos a força de προσκυνέω claramente aponta para um ato de adoração, que não foi rejeitado por Cristo em Mat.28.9; recebido por Ele nas regiões celestiais em Lc.24.52; realizado por toda criação em Ap.5.14 e ordenada por Deus aos anjos em Hb.1.6.
Portanto, podemos concluir seguramente que o NT claramente atribui a Cristo o ato de adoração, do mesmo modo a atribui a Deus. Pai e Filho são equiparados não apenas nas características que partilham, mas também na devoção e adoração que recebem. É evidente que Cristo é digno da nossa homenagem, entretanto, de acordo com as escrituras, Ele é digno de muito mais: Poder, honra, riqueza, sabedoria, louvor e a nossa adoração! Ele é nosso Senhor, e como Policarpo, nós o adoramos como Filho de Deus. A Ele devemos tudo, e tudo a Ele daremos, incluindo nossa adoração.

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