quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Os efeitos de uma vida santa. por Guthiere Fialho

O mundo cada vez mais globalizado, cheios de normativas e demandas que fazem com que seu grande objetivo seja alcançado: A eficiência na busca da produção. Em outras palavras, a excelência das atribuições postas pelas normativas. 
                                            
Com esse sentimento cada vez mais embutido em nosso estereótipos comportamentais, temos o levado para dentro da igreja, não só falo de igreja como instituição, mas nas relações sociais que formam os trabalhos na igreja. A primeira pergunta que se faz, tentando construir um raciocínio: Isso é salutar? Até que ponto a excelência deve ser enxergada como meta indiscutível?  Na própria indagação já se percebe que devemos por limites à esse sentimento cada vez mais forte, e que é visto por alguns como algo de grande eficiência.  A Bíblia, no livro de Jeremias, capitulo 48, versículo 10 nos afirma que : "Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente”. Para muitos, a resposta já estava sanada, por percebermos a "preocupação" do interprete em levar uma ideia de excelência nos trabalhos da comunidade ou povo de Deus.
            
Contudo, na expressão "relaxadamente", a expressão que também  pode ser levada é "“fraudulosamente ou enganosamente”. Que já nos dá uma ideia de que o autor expressava uma intenção que combate a hipocrisia. Pois no seguinte silogismo, temos: Se eu trabalho na casa de Deus, logo estou na casa de Deus. E se estou na casa de Deus, trabalhando enganosamente ou fraudulosamente, estou a fazendo de forma errônea. Embora esteja, mas meu coração e alma não está. Pertence à outro intento.
            
No caso, o que trata o profeta Jeremias, em profecia, é uma expressão de juízo para os que trouxeram infortúnio à Judá por causa de traição (negrito de expressão) que se sucedeu das relações diplomáticas entre Balaque, rei de Moabe, e o reino de Judá. Schultz & Smith (2005),  trazem um panorama de que essa ação dos Moabitas  trariam " destruição catastrófica tornaria o orgulho da terra de Moabe em lamento".
           
 Perceba o sentimento sutil, escondido por parte do povo que dantes pensava - se ter uma relação harmônica.  Assim é nossa vida, pensamos que estamos em uma convergência com a palavra, quando tentamos fazer algo com sentimento de "comprometimento exacerbado",  e abrimos espaço para um sentimento escuso, fazendo  com que o altar seja invadido e saqueado.
            
Fazendo uma interconexão com o dialogo entre Jesus e Nicodemos ( Jo 3:1-21), em uma determinada parte desta conversa, Nicodemos indaga à Jesus sobre como seria possível viver uma nova vida, mesmo sendo velho. Jesus, no versículo 8, diz : "vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito."Alguém pode perguntar : Qual a relação entre os dois textos ? 1- fazer a obra de Deus relaxadamente quer dizer ter algo que comprometa essa atribuição; 2 - O que compromete essa atribuição é aquilo que esta escondido, algo estranho aos olhos de Deus, em nosso coração; não somente o fato de ser relapsos quanto a obra; 3 - A resposta de Jesus á Nicodemos faz todo sentido pro texto, que aqui vos apresento, por intermédio da revelação do Espírito: Para termos uma vida onde o trabalho para Deus é para Glória dEle, temos que perceber os efeitos desta nova vida, atribuída à nós pelo plano de redenção Cristiano.         
           
 Não se vê o vento, só sabemos que ele está lá por causa do efeito que ele causa naquilo que ele toca. Assim deve ser nossa vida: Mais efeitos e menos falácia, mais efeitos e menos pinturas, mais conteúdo e menos método (Mc 12:24), mais semântica e menos símbolos.
            
Então, se levarmos em conta esse efeito, tudo que trouxemos, em bagagens bem pesadas, digo por sinal, deve ser deixada do lado de fora da comunidade que nos relacionamos. Na verdade não deveríamos carregá-la em plano nenhum, nem no secular, nem no eclesiástico, pois fomos chamados para ser santos, consagrados, separados, levando as marcas de Cristo, ou seja, levando Seu testemunho.
            
Piper (2003), cita Chesterton (1957), e sugere a ideia de que estamos passando por um momento de relativismo, que mudou, na verdade "resignificou" nossa estatura que "é exatamente aquilo que o  homem  não deveria confiar - nele mesmo". Passamos por uma crise de identidade moral, em relação á Deus, tão desonesta com nós mesmos, que o gera é um humanismo enrustido de espiritualidade  - se houver uma forma de interceder os dois. O "eu" é sutil e exprime-se sem dar uma só palavra, apenas age, para o seu próprio bem existencial, fazendo com que a assembléia dos santos de torne um corrida de obras que os promoverão. A dependência do Espírito, se encerra quando é me dado algo à apresentar.  
            
A palavra é categórica, quanto á essa idéia que não traz consigo o sentimento de humildade.  No livro de Romanos, Paulo admoesta: "Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior. Não sejam sábios aos seus próprios olhos. (Romanos 12:16 - NVI) e segue: "Não torneis a ninguém mal por mal; cuidai em coisas dignas diante de todos os homens;" (Romanos 12:17  - SBB)

Enfim, um sentimento que não possibilita os efeitos da nova vida, "vida pela água e Espírito", são esses invasores, que um dado momento prestarão seu intentos.  

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Aprendendo a viver o Evangelho por Guthiere Fialho


Muito de nós esquecemos que quando viemos viver a graça, passamos por processos de transformações, que posso dizer hoje: escabroso; e posso até dizer mais: terrível. Justifico esse minha primeira frase no que tem haver com as concepções e modos de vida, que antes foram, e não são, nem poder ser mais.                                                                                                                       

Viver uma vida pautada na palavra é, acima de tudo, deixar morrer. E "Morrer" não é algo fácil. É um processo de termino, de fim. E para agravar a tese, "morrer" em vida parece demandar muito mais de nós. É, simplesmente, sofrer com Cristo, lhe dar com as consequências de suas marcas, com sorriso no rosto, um sorriso de amor pelo próximo, mesmo que esse próximo não atenda nossas expectativas e demandas. Lembre o que Paulo diz ao povo da Galácia :

 "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim."Gálatas 2:20                                           

Vejo, nestes espaços de convívio, que hoje é muito mais virtual que real, as pessoas, sobretudo "cristãos", deixando suas máscaras caírem, pois é como disse um homem que tenho grande admiração: "Deixamos falar até quando estamos calados". Agora, imagine você, quando as fotos, mensagens e comentários deixam falar (Mt 12 :34)? É intrigante como a Palavra arrebata a verdade e aplicação da vida. Só mesmo o Autor da vida poderia ser tão penetrante e preciso na colocação.                                                                                                                                     

Morrer meus caros, é deixar os sentimentos mais sutis, se esvaírem. Mesmo que doa, mesmo que seja um "osso travado na garganta" , pois esse processo é que lhe esmera no melhor do evangelho. Mas alguém pode perguntar: " Você pede para que eu seja passivo à tudo?" Minha resposta: "Não". Você deve, veja  bem, deve brigar por seus direitos, quer seja ele civis, institucionais, profissionais , enfim...                                                                                                        

No  entanto, brigar por deveres quase nenhum quer. Revindicar por ordenanças que a nova vida nos impõe, isso quase não se aplica. Temos uma notória satisfação em direitos, pois esse nos encobre de razões e argumentos, mas quando chega a hora de nos doar, é ae que a nossa morte é revelada e pedi suas exigências. Amados, o principio da vida no evangelho , que significa boas novas,  é a morte de sua vida, mesmo que e isso doa.                                           

Como estamos falando de aprendizado, nada melhor que ver conceitos e exemplos. E como estamos falando de evangelho, faça a seguinte pergunta: O que Jesus sentiria, falaria , enfim, se comportaria se estivesse passando por isso que estou agora? Qual seria sua contribuição neste fato? Ele viveu a vida de homem,e passou por todas a demandas de um homem (Fp 2:6,7), as resistiu aquelas que o fariam desviar da ordenança do Pai. Foi irrepressível nos atos, e nos pensamentos (Hb 4:15).                                             
Sei que, em muitos do casos, a igreja, a comunidade que fazemos parte,  hoje, com o individualismo aflorado, tem permitido que exerçamos muito mais os direitos que os deveres, mas lembre-se primeiro da nossa busca de imitação maior: Cristo. Ele não falha e lhe dará, o que é devido, na hora certa.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Anjos: Imortais, mas não eternos. Por Guthiere Fialho



Na Teologia o ramo que estuda a doutrina dos anjos é Angelologia. Em certos aspectos como da sua existência, podemos nos deparar com uma dificuldade no que tem haver com características sobre a sua origem e longevidade. 


Em primeiro momento, podemos deduzir que a frase que intitula o texto (Anjos: Imortais, mas não eternos) pode estar em certa discrepância no que tem haver com o sentido lógico. Vejamos o que diz o texto do evangelho de Lucas.
“...mas os que forem considerados dignos de tomar parte na era que há de vir e na ressurreição dos mortos não se casarão nem serão dados em casamento, e não podem mais morrer, pois são como os anjos. São filhos de Deus, visto que são filhos da ressurreição.”Lucas 20:35-36

Percebemos claramente que o anjos são seres imortais (com um alto valor em sua longevidade), tendo Cristo comparado à anjos, os que alcançaram a salvação por intermédio de seu nome. O fato de que os anjos não pertencerem à classes de seres iguais à Deus, seres eternos, se baseia na ideia de estarem na classificação de seres criados, que não participaram da eternidade em toda sua plenitude, ou seja, para ser considerado um ser eterno, deve considerar que não há inicio, origem, surgimento para tal ser. “Louvado seja o Senhor, o Deus de Israel, de eternidade a eternidade! Amém e amém!” Salmos 41:13 
“O teu trono está firme desde a antiguidade; tu existes desde a eternidade. Salmos 93:2”

Os textos bíblicos elucidam que há uma diferença da palavra “imortal” e “eterna”, porquanto na percepção semântica pode até passar a ideia de equiparação dos termos, mas no sentido bíblico – teológico a diferença se estabelece quanto à “criatura” e “criador”. Só o Criador pode ser eterno tendo em vista que sua existência vai “de eternidade à eternidade” , já a existência do anjos é pautada na criação do Criador. Em algum momento da história os anjos foram criados, semelhantes aos homens no tocante à criação. 

"Louvem-no todos os seus anjos, louvem-no todos os seus exércitos celestiais.
 Louvem-no sol e lua, louvem-no todas as estrelas cintilantes.
 Louvem-no os mais altos céus e as águas acima do firmamento.
 Louvem todos eles o nome do Senhor, pois ordenou, e eles foram criados.”
Salmos 148:2-5

Devemos orar repetidamente pela mesma causa ou apenas uma única vez? por Pr. Geilson Rocha

Interessante colocação sobre algo da mais alta importância para nós: oração.
A pergunta é: devemos orar repetidamente pela mesma causa ou apenas uma única vez?
Apreciemos esses textos:
Lucas 18:1-7 declara: “E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer, Dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem. Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário. E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens, Todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito. E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?”

Lucas 11:5-13 proclama: “Disse-lhes também: Qual de vós terá um amigo, e, se for procurá-lo à meia-noite, e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, Pois que um amigo meu chegou a minha casa, vindo de caminho, e não tenho que apresentar-lhe; Se ele, respondendo de dentro, disser: Não me importunes; já está a porta fechada, e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para tos dar; Digo-vos que, ainda que não se levante a dar-lhos, por ser seu amigo, levantar-se-á, todavia, por causa da sua importunação, e lhe dará tudo o que houver mister. E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; Porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate abrir-se-lhe-á. E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?”
As duas passagens nos encorajam a orar e a continuar orando! Não há nada errado em pedir a mesma coisa repetidamente. Devemos apenas discernir se é algo da vontade de Deus (I João 5:14-15), mas para isso continue pedindo até que Deus conceda seu desejo ou remova o desejo de seu coração. Às vezes, Deus nos faz esperar por uma resposta às nossas orações para nos ensinar paciência e perseverança, isto é, há algo pedagógico na espera e na oração perseverante, insistente. Às vezes, pedimos por algo quando isto ainda não está no tempo de Deus para nossas vidas. Às vezes pedimos por algo que não é da vontade de Deus para nós, e Ele nos diz não. 
A oração não consiste apenas em apresentarmos nossos pedidos a Deus, mas também é Deus apresentando sua vontade aos nossos corações. Continue pedindo, continue batendo, continue buscando, até que Deus conceda seu pedido, ou o convença de que seu pedido não é a Sua vontade para você.
Não esqueçamos que há uma porção das Escrituras destinada a nos exemplificar de modo real e concreto as multiformes maneiras de se derramar a alma em oração diante de Deus: os Salmos. O saltério é uma verdadeira escola da oração.
É digno de nota também a insistência de Jesus em pedir para que o Pai, se assim consentisse, afastasse aquele "cálice" (a angústia do sofrimento e da morte) dele (Jesus) (Mateus 26. 39 - 44). Dessa forma orou TRÊS VEZES. E mais interessante ainda é versículo 44, desse mesmo capítulo ao nos dizer que Jesus orou pela terceira vez, "repetindo as mesmas palavras" (v. 44) das orações anteriores.
Portanto, não há nenhum problema em orarmos por algo mais de uma vez. Tal pensamento não se sustenta em pé diante da mais simples investigação bíblica.

Um abraço a todos!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Uma inconfessada “neo-ortodoxia" por Pr. Geilson Rocha

A neo-ortodoxia foi uma vigorosa reação contra o liberalismo teológico vigente na Europa e na cristandade norte americana entre os séculos XVIII e XIX. A neo-ortodoxia, especialmente na figura de notáveis expoentes como Karl Barth, Emil Brunner, Rudolf Bultmann e Reinhold Niebuhr , representou um enorme esforço para trazer a Revelação de volta para o centro da construção teológica, algo julgado impraticável pelo liberalismo por tal empresa não se harmonizar com o perfil epistemológico da modernidade. A célebre frase do teólogo americano Richard Niebuhr (irmão de Reinhold Niebuhr) retrata bem a visão neo-ortodoxa da teologia produzida pelos liberais: “Um Deus sem ira trouxe homens sem pecado a um reino sem julgamento através das ministrações de um Cristo sem cruz” (NIEBUHR apud GRENZ e OLSON, p. 71). 

Nosso intuito, entretanto, não é discutir as contribuições legadas pela neo-ortodoxia, mas apenas focar um ponto especificamente abraçado por dois proponentes dessa teologia – Karl Barth e Emil Brunner – sobre as Escrituras Sagradas. Que ambos foram brilhantes e de rara criatividade, para mim, um fato insofismável. K. Barth, por exemplo, foi, para muitos, incluindo o autor do presente texto, o maior teólogo do século XX. Sua obra Der Romerbrief (Epístola aos Romanos) foi uma duríssima e bem construída crítica à teologia liberal, caindo “como uma bomba no quintal onde brincavam os teólogos” (Id., p. 77). Nessa obra, Barth ousou afirmar exatamente o que há mais de cem anos era negado pelos liberais, isto é, a doutrina da inspiração verbal das Escrituras.

Interessa-nos, todavia, saber a forma como concebiam as Sagradas Escrituras. Tanto Barth como Brunner enxergavam a Bíblia de uma forma diferente do pensamento cristão tradicional. Para Barth, falar da Palavra de Deus e da Bíblia Sagrada não significava tratar do mesmo assunto. Apesar de reconhecer existir relações entre os dois discursos (a Palavra divina e a Bíblia), Barth não concebia, em sua teoria sobre a Revelação, o discurso bíblico como eminentemente, ou na sua totalidade, Palavra de Deus. Para o teólogo suíço, a Palavra de Deus era a reunião de três formas ou modos: a primeira e superior as outras duas é a pessoa de Jesus Cristo, que para Barth seria “o evangelho em si”; a segunda forma seria a Bíblia, isto é, “a testemunha privilegiada de toda a revelação divina”; a última forma seria como já mencionamos nesse trabalho, a proclamação do evangelho e da pessoa de Jesus Cristo pela própria igreja. Dentro desse esquema é possível percebermos as duas últimas formas como Palavra de Deus “apenas num sentido instrumental”, tornando-se Palavra de Deus desde que usadas por Deus para esse fim (Id., p.82). Nas palavras do próprio Barth, “a Bíblia é a Palavra de Deus à medida que Deus faz com que ela seja sua Palavra, à medida que Ele fala através dela” (BARTH apud GRENZ e OLSON, p. 82). Apesar de na prática Barth ter usado as Escrituras como fonte absoluta de sua teologia, sua teoria da Revelação não deixou de enfraquecê-la enquanto repositório infalível da doutrina. Lavada às últimas conseqüências, sua teoria desemboca na idéia de que se Deus, em algum momento, não fizer uso das Escrituras para falar ao homem, naquele instante a bíblia estará, no máximo, fadada à modesta posição de um livro melhor do que os outros. Ao mesmo tempo, pensada dessa maneira, a Revelação não passaria de um acontecimento, uma experiência específica. 

Na esteira de Barth veio Emil Brunner com sua idéia de “Revelação como um encontro”, ou seja, “nenhum discurso, nenhuma palavra é adequada para o mistério de Deus como pessoa”, afirmou o próprio Brunner (BRUNNER apud GRENZ e OLSON, p. 95). Dessa forma, a revelação é “sempre um acontecimento pessoal, um relacionamento de encontro [...]” (Idem). Não é a comunicação proposicional, objetiva, informativa sobre Deus, o homem, o pecado, a salvação, a vida, etc., mas a comunicação do próprio Deus via experiência. Indubitavelmente uma das mais belas e criativas formas de se pensar a Revelação, contudo sem sustentação se examinado o próprio testemunho exarado na bíblia sobre si mesma. A Revelação não deve ser entendida apenas como ocorrência empírica, pois desembocaria em subjetivismo crônico. Cremos que Deus possa se revelar por meio de encontros pessoais, particulares, como fez com Abraão, Moisés, Davi, Paulo, Pedro, João, mas isso o faz – e sempre fez – informando-nos algo acerca de si mesmo, e esse “algo”, essas informações (proposições) estão basicamente registradas na Bíblia e delas as Escrituras dão testemunho (ERICKSON, 1997, p. 65).

Mas essa foi apenas uma discussão preliminar, discussão essa à serviço da observação de um fenômeno cada vez mais comum em nossos púlpitos a que chamo de “inconfessada neo-ortodoxia”. Por que “inconfessada”? Por duas razões muito simples. Primeiramente, por ignorância, pois muitos dos agenciadores dessa prática nunca leram e nem ouviram falar de qualquer postulado neo-ortodoxo; não leram nenhuma obra de Barth ou de qualquer ícone neo-ortodoxo. Outros pelo etos de ortodoxia que procuram manter, pois conhecendo a concepção neo-ortodoxa de Revelação procuram, a todo custo, fugir da pecha de defensores da Bíblia como documento que “contém a Palavra”. 
Sendo assim, definimos a “inconfessada neo-ortodoxia” no púlpito a prática de pregar fundamentado não nas informações presentes nas Escrituras ou na porção bíblica selecionada para a prédica, mas nas supostas informações obtidas por meio de um “encontro”, de uma hipotética experiência com o texto. Apesar da proximidade com a forma de interpretação alegórica praticada por muitos teólogos ao longo da história da igreja, a “inconfessada neo-ortodoxia” diferencia-se por não ser necessariamente a busca de uma verdade por trás do sentido literal texto, ou de uma verdade oculta, acessível apenas aos mais “espirituais”, mas um “encontro” com uma verdade acessada por meio de uma “experiência espiritual” na qual o mais importante não é o que está transcrito no texto, as informações claramente reveladas lá, mas o que supostamente o “Espírito Santo” diz estar lá, mesmo que não esteja como ocorre na maioria das vezes.
A busca não é pelo sentido do texto, mas pelo sentido do texto para mim. Nesse tipo de lida com o texto, o estudo, a busca real pelo sentido, a análise lexical e gramatical, o labor hermenêutico, o esforço exegético para se expor o que jaz na passagem escolhida é substituído pela procura subjetiva de elementos que faça sentido para o pregador. 

Por conta disso, vemos assomar aos púlpitos pregadores ortodoxos na teoria, mas neo-ortodoxos na prática (prédica); dizendo-se crentes na inspiração plena e na inerrância das Escrituras, na suficiência da Bíblia enquanto regra de fé e prática, são adeptos de uma pregação cujo alicerce maior é algum tipo de “encontro” com verdades acessadas pelo uso das Escrituras como um mero acessório da Revelação divina. Os resultados dessa falsa concepção das Escrituras é uma prática homilética equivocada. E essa distorção vem manifestando sorrateiramente os seus efeitos: a resistência em vários espaços evangélicos em se ouvir um sermão expositivo, tratado como uma forma “chata” de pregação; elementos do discurso relativista secular permeando a fala de muitos cristãos evangélicos; a Bíblia cada vez mais tornada talismã são apenas alguns dos danosos efeitos gerados pela “inconfessada neo-ortodoxia” na prédica. Para esses tribunos inconfessadamente neo-ortodoxos a Bíblia é a Palavra de Deus, em tese. Mas suas preleções indicam ser ela tão somente uma serviçal da experiência pessoal. 

A verdade não está dentro de nós, mas fora de nós. A verdade está em Deus e em sua Palavra que Ele mesmo tratou de nos deixar preservada por escrito: a Bíblia Sagrada. Ao conferir à experiência subjetiva um patamar superior ou até em pé de igualdade com as Escrituras damos “passe-livre” ao pluralismo subjetivista onde a “verdade” de um mesmo não sendo a “verdade” do outro podem perfeitamente conviver em harmonia. 

Mesmo em seu melhor momento, a neo-ortodoxia acabou por facilitar o ingresso do conceito de relativização da verdade; como bem assevera Solano Portela, não como uma rejeição total dos pontos principais da teologia herdada da Reforma, mas através de uma redefinição de alguns desses pontos, especialmente no “Sola Scripture” (somente a Escritura), onde a visão subjetiva e pessoal passa a existir onde deveria imperar a objetividade . 

A neo-ortodoxia não serve como aparato teórico e nem prático para a pregação. Incontestável prova da inadequação dos postulados neo-ortodoxos para a proclamação do evangelho concede o maior expoente da teologia neo-ortodoxa: Karl Barth. Sobre essa matéria, o próprio Barth pontua: “para ser positiva, a pregação deve ser uma explicação da Escritura. Não tenho eu que falar sobre, senão de (ex), tirando da Escritura o que digo. [...] a pregação consiste numa explicação das Escrituras [...]. Não tem que dizer mais do que diz a Escritura” (op. cit. p. 19, 39). Essa colocação torna-se da mais alta relevância por se tratar de uma provável contradição em Barth. Apesar de pensar a Revelação de uma forma distinta do pensamento cristão tradicional (ortodoxia), na prática Barth buscou mergulhar sua teologia inteiramente na Bíblia, o que o tornou alvo de críticas tanto por parte dos conservadores que julgavam sua diferenciação entre “Palavra de Deus” e a bíblia danosa para a fé, como por parte dos liberais que o julgavam por seu tratamento dado às Escrituras como livro divinamente inspirado. Havia claramente uma diferença entre “a teoria de Barth acerca das Escrituras e o uso que ela fazia dessa teoria”, isto é, tratando a bíblia “como autoridade absoluta na teologia”, e sem dúvida na pregação também (op. cit. p. 89). Portanto, o próprio Barth depõe contra o uso neo-ortodoxo da bíblia na pregação. Para ele, o pregador não tem “que dizer, senão repetir” o que diz a Escritura. 

Para nossa tristeza o fenômeno da pregação “inconfessadamente neo-ortodoxa” tem ganhado muitos adeptos e de certa forma se aproveitado de “mentes” teologicamente desavisadas, que expostas a esse tipo de prédica pensam estar diante de uma “nova” e válida maneira de pregar. 

Ledo engano!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

EU JULGO!!! VOCÊ PODE? Por Guthiere Fialho

É como alguém disse: “Texto sem contexto vira pretexto.” É nesse mote que quero argumentar, ou contra argumentar a falácia que é muito difundida: “Só Deus pode me julgar”. Baseia-se, de maneira bem conveniente, com intenções bem explicitas e duvidosas, o texto do livro do Evangelho de Matheus, Capitulo 7, versículo 1 para dar molde e “idoneidade” à demonstração de um sentimento de respeito e aceitação ao erro e situação que o outro pratica. Vejamos:                                                       

“Não julgueis, para que não sejais julgados.” Mateus 7:1

Se vislumbrarmos, somente o texto á luz de um único versículo, sim, então estamos enclausurados uma ordenança do nosso próprio Senhor, contudo havendo um pequeno exercício de interpretação, que demanda que leiamos o texto todo, vendo que Jesus deixa claro os fatores condicionantes.  No versículo 2 em diante, do mesmo capitulo em questão, o que Jesus nos orienta é o erro de um juízo temerário, imprudente pela visão hipócrita que é da natureza do homem pecaminoso. 

“Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós”. Mateus 7:2

A condição de causa e efeito está posta. Da mesma forma que você julga, não usando do bom senso no Espirito, você também será julgado de forma que alguém que está em situação crítica, também lhe caluniará, fazendo “mau caso” de sua situação. Assim continua o texto:
“E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?

"Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?”
Mateus 7:3-4

Ainda explicando as condições, Jesus através destas duas interrogações, infere a ideia de que para que haja aceitação e eficácia nesta relação, deve existir uma condição ilibada, que foge das maculas que, em si, provocam hipocrisia e falsa admoestação. Seguindo o texto que faz parte de uma coleção da maior pregação instrucional de Jesus: O sermão do Monte. Que começou no capitulo 5 do mesmo livro (Matheus).

“Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.” Mateus 7:5

Jesus desfere um vocativo (“Hipocrita”) e que dá um adjetivo ao individuo que se utiliza da condição do outro para esconder a sua, que muitas vezes está bem pior. Enfim, fora desta, havendo um sentimento de real ensino, ajuda na circunstancia desprovida do outro, baseada no amor (greg. Ágape), há sim condição de classificarmos os erros do outro.
"Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado;" Hebreus 3:13

“Se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; Ou o que exorta, use esse dom em exortar[...]” Romanos 12:7-8

É da natureza humana fazer deduções, conclusões, classificações ( quantitativas e qualitativas), e por isso, de alguma forma, nos possibilita à condição e estilo vida que escolhemos. Dizer que um texto estão ou não bem redigido, um musica ou programa de televisão é de bom ou mal proveito, que pessoas que conhecemos são ou não agregadoras em nossas vidas. Tudo isso se faz por meio de julgamentos conscientes e inconscientes que fazemos sobre pessoas e coisas.

No texto 1 Coríntios 6:1-5, o Apostolo Paulo no impele à fazer isso, pois somos nós quem temos a credibilidade, por possuirmos a Palavra e Espirito Santo ( quando ele fala dos santos). Em geral, todos nós temos que julgar todas as coisas, retendo o bem e rejeitando o mal (1 Tessalonicenses 5:21-22). Para discernir entre essas coisas, é necessário crescer espiritualmente (Hebreus 5:12-14). As pessoas incapazes de julgar continuam como crianças, como pessoas carnais (1 Coríntios 3:1).

É nesse sentido que o texto de Mateus cap. 7: 6 elucida a ideia:                                                                          
“Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.” Mateus 7:6

Se não for assim, como discerniremos aquilo que é “santo” e “perola” dos “cães” e “porcos”. Só pelo conhecimento, pelos parâmetros da palavra é que conseguiremos separar o “joio do trigo”, ou “malhar o trigo no lagar ou na eira” .

Por: AGFA

Deus vos Abençoe!!