sexta-feira, 5 de junho de 2015

A expressão "o bom, o certo" é relativa ou concreta?

Essas expressões vêm sido usadas de forma, em que seus significados são bem flexíveis na valoração de coisas e atitudes de pessoas. Estas ganharam certa notoriedade depois do iluminismo, quando alguns pensadores, como Immanuel Kant, sec. XVIII, em suas analises, levaram a bivalência ou "mais valências" a verdade (relativismo), isto é, as coisas e pessoas não tinham mais significados concretos. Toda construção de valores era esteio que compunha de vários aspectos sociais, ontológicos e inatos. Sendo assim, o abstrato tem mais valor que o concreto, o vivido e o definido no real. Os argumentos usados pelos pensadores parecem bem convincentes se colocarmos a humanidade como autora principal de seus processos e demandas na historia.                                                                                   
No texto do evangelho de Matheus 19:16-22, Jesus entra em um dialogo com o jovem rico. Texto muito conhecido pelo ensino moral que prega ideia de que não adianta verificar (obedecer) toda a lei, se seu coração não está em adoração ao Autor da Lei; e que é fácil corromper-se dessa forma, quando estamos apegados a coisas deste mundo. Pois bem, o que fica não muito em evidencia neste texto é o versículo 17, quando diz: " Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos" (ARA).                                               

O interessante nesta passagem é a primeira sentença , na fala de Jesus: "... que você me pergunta sobre o que é bom?..." O jovem, ao iniciar a conversa, teria perguntado a Jesus o que ele poderia fazer de bom para alcançar a vida eterna. Jesus, o nosso Mestre, já havia percebido o intento no coração do jovem. O que melhor poderia fazer de bom, já que ele era detentor de tantas riquezas, abastado pela vida, e ainda , tinha convicção de seus deveres com a lei? O sentimento que pode vir, ao pensarmos no dialogo, é que Jesus já tinha dado a resposta a ele desde a primeira fala. Para pessoas que não sentem falta de nada, nem de Deus, "o bom" é alcançável pela força de suas mãos, pela força de suas posses. Não venho aqui dizer o servo do Senhor não pode ter posses e adquirir o melhor desta terra, na verdade, o intento é argumentar sobre o que o mundanismo tem feito com as convicções que devemos ter em Deus. Que por mais que o mundo não dê as certezas, que para nós são demandas, o Autor e Consumador da fé dará, mesmo que a circunstância pareça contraria. A palavra nos admoesta ao "sim sim e não não" (Matheus 5:37). Ela não nos faz pensar que "o bom" é circunstancial ou subjetivo. Ela nos direciona, não importa a condição de vida, que o Pai, o Filho e Espírito Santos são mais que suficientes para nos dá aquilo que necessitamos.                                                                                                                
No texto do livro de Isaias 5:20-2, diz : “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!”. Mais uma vez Deus, por intermédio do profeta, nos admoesta acerca do relativismo causado do pensamento humano. O profeta é enfático neste trecho sobre os pecados que podem parecer bons, pois temporariamente nos trazem sentimentos que nos desviam das ocorrências da vida. Pecados estes que provocam em nós um sentimento de satisfação, mas na verdade estão em desagrado com a essência da verdade das Escrituras, com a intenção de suprir suas necessidades pessoais (alma e carne).                                                                                                                                   
Por isso queridos, olhem para luz da verdade que é a Palavra, o próprio verbo que se fez homem. Não dê espaços para limitações de filosofia humana. Existe, ao nosso alcance, Aquele que produz em nós refrigério. Aquele que produz em nós "a fé, a esperança e amor" (1 Co.13:13a). Produz aquilo que mais precisamos, pela fé em Cristo na Sua palavra,  que é obedecer.

"Assegurou-lhes Jesus: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.( João 14:6)"



Sola scriptura   

quinta-feira, 4 de junho de 2015

As origens do evangelicalismo



O evangelicalismo tem sua origem no interior da Igreja da Inglaterra no século XVIII. Havia, desde o século XVI, a herança da ala mais protestante da Igreja (“igreja baixa”), com a influência luterana e calvinista e a presença de puritanos que optaram pela permanência na instituição. Com os irmãos John e Charles Wesley, George Whitefield e John Fletcher vem a influência armeniana.

Vale lembrar que o “metodismo” foi primeiramente um movimento evangélico dentro da Igreja Anglicana. Os irmãos Wesley viveram até o fim nessa igreja, e, até hoje, constam como homenageados pelo calendário anglicano. Após a sua morte é que há o cisma, com a criação da Igreja Metodista. Parcela significativa dos seus seguidores, porém, continuou na Igreja Anglicana, formando a ala evangelical.

As características 

O evangelicalismo inglês, nos seus primórdios, foi marcado pelo compromisso com a Bíblia como Palavra de Deus, a confessionalidade credal, a disciplina pessoal, a piedade, o amor aos necessitados, o zelo evangelístico e a denúncia contra a decadência de costumes.

Em reação ao iluminismo e ao humanismo, assim resumia um autor as marcas do evangelicalismo: “O homem não é a criatura nobre que muitos pensam ser; ele é falível, e totalmente depravado. Por isso ele precisa de salvação, e a salvação só vem através de Cristo sozinho e depende da fé. A aceitação, pela fé, de que Cristo é Salvador é chamada de “conversão”, e esta conversão normalmente acontece de maneira súbita, que nunca mais será esquecida, como um tesouro, para o resto da vida. Mas a conversão não é o fim. Ela leva, naturalmente, a uma san-tificação e crescimento na graça. Estas, o crente encontra por meio da oração, do estudo diário da Bíblia, dos sermões e, por extensão, dos sacramentos.”

O movimento foi marcado pela revitalização da pregação, pela inclusão das emoções e pela mudança de vida em milhares de pessoas.

No começo a sua base social era entre as camadas populares, mas uma de suas militantes foi Selina, Condessa de Huntingdon, que promoveu em sua mansão cultos para a aristocracia e a burguesia. Muitos se converteram e aportaram recursos para a causa (bispos assistiam aos cultos escondidos atrás de uma cortina...), e a primeira escola para a formação de missionários foi organizada em Gales. A música cristã foi influenciada, com a composição de hinos que se tornaram populares até hoje.

O crescimento

Com o cisma metodista os evan-gelicais anglicanos ficaram inicialmente fragilizados, mas logo foram revitalizados, no início do século XIX, sob a liderança de Charles Simeon, de Cambrigde, inspirador dos primeiros movimentos de universitários cristãos, e de John Venn, de Claphan, que, juntamente com William Wilberforce, combateu o siste-ma escravista e as injustiças sociais, no âmbito da ação parlamentar e de iniciativas filantrópicas.

Os evangélicos criaram a “Sociedade Missionária de Folhetos”, para a distribuição de Bíblias e de literatura religiosa às massas. Fundaram também a primeira missão ao estrangeiro, a “Sociedade Missionária da Igreja” (CMS). Vastas áreas do que é hoje a Comunhão Anglicana foram evangelizadas por evangélicos, permanecendo assim até hoje (Quênia, Uganda, Nigéria etc).

No século XIX, primeiro na Grã-Bretanha, depois na América do Norte, e, finalmente, no mundo inteiro, a partir do anglicanismo, o evangelicalismo se espalhou por praticamente todas as denominações reformadas, em muitas se tornando hegemônico e, em algumas, exclusivo. Na Inglaterra a maioria se reúne na Assembléia Nacional dos Evangélicos (ENA) e, em nível inter-nacional, na Fraternidade Evangélica Mundial (WEF).

Na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX o evangelicalismo sofreu um relativo declínio na Igreja da Inglaterra e um enorme declínio nas igrejas anglicanas do Canadá e dos Estados Unidos, diante do crescimento do liberalismo e do anglo-catolicismo como outras correntes internas. Após a Segunda Guerra, porém, sob a liderança do Rev. John Sttot, o movimento conheceu novo florescimento, computando hoje 40% do clero da Igreja da Inglaterra (com sete dos quinze seminários teológicos), e sua influência já se faz sentir no âmbito da hierarquia: dois dos últimos quatro Arcebispos de Cantuária (líderes espirituais e símbolos de unidade) foram oriundos do evange-licalismo: o penúltimo, Donald Coggan (um “clássico”), e o atual, George Carey (um “carismático”). A Fraternidade dos Evangélicos na Comunhão Anglicana (EFAC), presidida pelo Arcebispo de Quênia, Revmo. David Guitari, reúne, em nível internacional, os seguidores dessa corrente no anglicanismo.

Autores como J. Packer, Michael Green, C. S. Lewis, Christopher Wright, além do próprio John Sttot, e tantos outros são reconhecidos mundialmente, e sua marca se fez sentir no Movimento de Lausanne. O mundo cristão é grande-mente devedor à teologia evangélica anglicana, embora muitos leitores sequer saibam que esses autores são anglicanos e tenham dificuldade em entender a vigorosa presença do evangelicalismo no interior de uma igreja marcada pela diversidade de correntes internas.

Evangelicalismo versus fundamentalismo
Em sendo assim, é bom lembrar que: 1) o evangelicalismo tem origem na Grã-Bretanha e não nos Estados Unidos da América; 2) o evangelicalismo tem origem no anglicanismo e não nas igrejas livres; 3) o evangelicalismo original tinha forte consciência social e política; 4) por sua base em universidades como Cambridge e Oxford, o evangelicalismo sempre foi compatível com a excelência acadêmica; 5) o evangelicalismo das igrejas históricas litúrgicas (anglicanos e luteranos) se expressam — com simplicidade e criatividade — no marco da liturgia de suas igrejas, não compartilhando do excessivo espontaneísmo cultural dos evangélicos de outras igrejas; 6) o evangelicalismo de origem européia, particularmente o das igrejas históricas litúrgicas, se distancia do legalismo e do excessivo moralismo dos evangélicos (e fundamentalistas) de outras igrejas, demarcando uma nítida diferença na área de usos e costumes; 7) o evangelicalismo das igrejas históricas litúrgicas tem participado, de modo afirmativo, do movimento ecumênico, não comungando do separatismo nem do sectarismo encontrados em outros círculos evangélicos (e fundamentalistas); 8) o fundamentalismo (fraco na Grã-Bretanha e forte nos Estados Unidos) surgiu, 100 anos depois, como expressão localizada e extremada do evangelicalismo, e não o evange-licalismo como expressão moderada do fundamentalismo; 9) o que se conhece como “evangelicalismo” no Sul dos Estados Unidos e na América Latina na verdade não é evangelicalismo, mas fundamentalismo. Esse é o cenário majoritário no Brasil hoje.

Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife.