A neo-ortodoxia foi uma vigorosa reação contra
o liberalismo teológico vigente na Europa e na cristandade norte americana
entre os séculos XVIII e XIX. A neo-ortodoxia, especialmente na figura de
notáveis expoentes como Karl Barth, Emil Brunner, Rudolf Bultmann e Reinhold Niebuhr , representou um enorme esforço
para trazer a Revelação de volta para o centro da construção teológica, algo
julgado impraticável pelo liberalismo por tal empresa não se harmonizar com o
perfil epistemológico da modernidade. A célebre frase do teólogo americano
Richard Niebuhr (irmão de Reinhold Niebuhr) retrata bem a visão neo-ortodoxa da
teologia produzida pelos liberais: “Um Deus sem ira trouxe homens sem pecado a
um reino sem julgamento através das ministrações de um Cristo sem cruz”
(NIEBUHR apud GRENZ e OLSON, p. 71).
Nosso
intuito, entretanto, não é discutir as contribuições legadas pela
neo-ortodoxia, mas apenas focar um ponto especificamente abraçado por dois
proponentes dessa teologia – Karl Barth e Emil Brunner – sobre as Escrituras
Sagradas. Que ambos foram brilhantes e de rara criatividade, para mim, um fato
insofismável. K. Barth, por exemplo, foi, para muitos, incluindo o autor do
presente texto, o maior teólogo do século XX. Sua obra Der Romerbrief (Epístola
aos Romanos) foi uma duríssima e bem construída crítica à teologia liberal,
caindo “como uma bomba no quintal onde brincavam os teólogos” (Id., p. 77).
Nessa obra, Barth ousou afirmar exatamente o que há mais de cem anos era negado
pelos liberais, isto é, a doutrina da inspiração verbal das Escrituras.
Interessa-nos,
todavia, saber a forma como concebiam as Sagradas Escrituras. Tanto Barth como
Brunner enxergavam a Bíblia de uma forma diferente do pensamento cristão
tradicional. Para Barth, falar da Palavra de Deus e da Bíblia Sagrada não
significava tratar do mesmo assunto. Apesar de reconhecer existir relações
entre os dois discursos (a Palavra divina e a Bíblia), Barth não concebia, em
sua teoria sobre a Revelação, o discurso bíblico como eminentemente, ou na sua totalidade,
Palavra de Deus. Para o teólogo suíço, a Palavra de Deus era a reunião de três
formas ou modos: a primeira e superior as outras duas é a pessoa de Jesus
Cristo, que para Barth seria “o evangelho em si”; a segunda forma seria a
Bíblia, isto é, “a testemunha privilegiada de toda a revelação divina”; a
última forma seria como já mencionamos nesse trabalho, a proclamação do
evangelho e da pessoa de Jesus Cristo pela própria igreja. Dentro desse esquema
é possível percebermos as duas últimas formas como Palavra de Deus “apenas num
sentido instrumental”, tornando-se Palavra de Deus desde que usadas por Deus
para esse fim (Id., p.82). Nas palavras do próprio Barth, “a Bíblia é a Palavra
de Deus à medida que Deus faz com que ela seja sua Palavra, à medida que Ele
fala através dela” (BARTH apud GRENZ e OLSON, p. 82). Apesar de na prática
Barth ter usado as Escrituras como fonte absoluta de sua teologia, sua teoria
da Revelação não deixou de enfraquecê-la enquanto repositório infalível da
doutrina. Lavada às últimas conseqüências, sua teoria desemboca na idéia de que
se Deus, em algum momento, não fizer uso das Escrituras para falar ao homem,
naquele instante a bíblia estará, no máximo, fadada à modesta posição de um
livro melhor do que os outros. Ao mesmo tempo, pensada dessa maneira, a
Revelação não passaria de um acontecimento, uma experiência específica.
Na
esteira de Barth veio Emil Brunner com sua idéia de “Revelação como um
encontro”, ou seja, “nenhum discurso, nenhuma palavra é adequada para o mistério
de Deus como pessoa”, afirmou o próprio Brunner (BRUNNER apud GRENZ e OLSON, p.
95). Dessa forma, a revelação é “sempre um acontecimento pessoal, um
relacionamento de encontro [...]” (Idem). Não é a comunicação proposicional,
objetiva, informativa sobre Deus, o homem, o pecado, a salvação, a vida, etc.,
mas a comunicação do próprio Deus via experiência. Indubitavelmente uma das
mais belas e criativas formas de se pensar a Revelação, contudo sem sustentação
se examinado o próprio testemunho exarado na bíblia sobre si mesma. A Revelação
não deve ser entendida apenas como ocorrência empírica, pois desembocaria em
subjetivismo crônico. Cremos que Deus possa se revelar por meio de encontros
pessoais, particulares, como fez com Abraão, Moisés, Davi, Paulo, Pedro, João,
mas isso o faz – e sempre fez – informando-nos algo acerca de si mesmo, e esse
“algo”, essas informações (proposições) estão basicamente registradas na Bíblia
e delas as Escrituras dão testemunho (ERICKSON, 1997, p. 65).
Mas essa
foi apenas uma discussão preliminar, discussão essa à serviço da observação de
um fenômeno cada vez mais comum em nossos púlpitos a que chamo de “inconfessada
neo-ortodoxia”. Por que “inconfessada”? Por duas razões muito simples.
Primeiramente, por ignorância, pois muitos dos agenciadores dessa prática nunca
leram e nem ouviram falar de qualquer postulado neo-ortodoxo; não leram nenhuma
obra de Barth ou de qualquer ícone neo-ortodoxo. Outros pelo etos de ortodoxia
que procuram manter, pois conhecendo a concepção neo-ortodoxa de Revelação
procuram, a todo custo, fugir da pecha de defensores da Bíblia como documento
que “contém a Palavra”.
Sendo assim, definimos a “inconfessada neo-ortodoxia” no púlpito a prática de pregar fundamentado não nas informações presentes nas Escrituras ou na porção bíblica selecionada para a prédica, mas nas supostas informações obtidas por meio de um “encontro”, de uma hipotética experiência com o texto. Apesar da proximidade com a forma de interpretação alegórica praticada por muitos teólogos ao longo da história da igreja, a “inconfessada neo-ortodoxia” diferencia-se por não ser necessariamente a busca de uma verdade por trás do sentido literal texto, ou de uma verdade oculta, acessível apenas aos mais “espirituais”, mas um “encontro” com uma verdade acessada por meio de uma “experiência espiritual” na qual o mais importante não é o que está transcrito no texto, as informações claramente reveladas lá, mas o que supostamente o “Espírito Santo” diz estar lá, mesmo que não esteja como ocorre na maioria das vezes.
Sendo assim, definimos a “inconfessada neo-ortodoxia” no púlpito a prática de pregar fundamentado não nas informações presentes nas Escrituras ou na porção bíblica selecionada para a prédica, mas nas supostas informações obtidas por meio de um “encontro”, de uma hipotética experiência com o texto. Apesar da proximidade com a forma de interpretação alegórica praticada por muitos teólogos ao longo da história da igreja, a “inconfessada neo-ortodoxia” diferencia-se por não ser necessariamente a busca de uma verdade por trás do sentido literal texto, ou de uma verdade oculta, acessível apenas aos mais “espirituais”, mas um “encontro” com uma verdade acessada por meio de uma “experiência espiritual” na qual o mais importante não é o que está transcrito no texto, as informações claramente reveladas lá, mas o que supostamente o “Espírito Santo” diz estar lá, mesmo que não esteja como ocorre na maioria das vezes.
A busca
não é pelo sentido do texto, mas pelo sentido do texto para mim. Nesse tipo de
lida com o texto, o estudo, a busca real pelo sentido, a análise lexical e
gramatical, o labor hermenêutico, o esforço exegético para se expor o que jaz na
passagem escolhida é substituído pela procura subjetiva de elementos que faça
sentido para o pregador.
Por conta
disso, vemos assomar aos púlpitos pregadores ortodoxos na teoria, mas
neo-ortodoxos na prática (prédica); dizendo-se crentes na inspiração plena e na
inerrância das Escrituras, na suficiência da Bíblia enquanto regra de fé e
prática, são adeptos de uma pregação cujo alicerce maior é algum tipo de
“encontro” com verdades acessadas pelo uso das Escrituras como um mero
acessório da Revelação divina. Os resultados dessa falsa concepção das
Escrituras é uma prática homilética equivocada. E essa distorção vem
manifestando sorrateiramente os seus efeitos: a resistência em vários espaços
evangélicos em se ouvir um sermão expositivo, tratado como uma forma “chata” de
pregação; elementos do discurso relativista secular permeando a fala de muitos
cristãos evangélicos; a Bíblia cada vez mais tornada talismã são apenas alguns
dos danosos efeitos gerados pela “inconfessada neo-ortodoxia” na prédica. Para
esses tribunos inconfessadamente neo-ortodoxos a Bíblia é a Palavra de Deus, em
tese. Mas suas preleções indicam ser ela tão somente uma serviçal da
experiência pessoal.
A verdade
não está dentro de nós, mas fora de nós. A verdade está em Deus e em sua Palavra
que Ele mesmo tratou de nos deixar preservada por escrito: a Bíblia Sagrada. Ao
conferir à experiência subjetiva um patamar superior ou até em pé de igualdade
com as Escrituras damos “passe-livre” ao pluralismo subjetivista onde a
“verdade” de um mesmo não sendo a “verdade” do outro podem perfeitamente
conviver em harmonia.
Mesmo em
seu melhor momento, a neo-ortodoxia acabou por facilitar o ingresso do conceito
de relativização da verdade; como bem assevera Solano Portela, não como uma
rejeição total dos pontos principais da teologia herdada da Reforma, mas
através de uma redefinição de alguns desses pontos, especialmente no “Sola
Scripture” (somente a Escritura), onde a visão subjetiva e pessoal passa a
existir onde deveria imperar a objetividade .
A neo-ortodoxia
não serve como aparato teórico e nem prático para a pregação. Incontestável
prova da inadequação dos postulados neo-ortodoxos para a proclamação do
evangelho concede o maior expoente da teologia neo-ortodoxa: Karl Barth. Sobre
essa matéria, o próprio Barth pontua: “para ser positiva, a pregação deve ser
uma explicação da Escritura. Não tenho eu que falar sobre, senão de (ex),
tirando da Escritura o que digo. [...] a pregação consiste numa explicação das
Escrituras [...]. Não tem que dizer mais do que diz a Escritura” (op. cit. p.
19, 39). Essa colocação torna-se da mais alta relevância por se tratar de uma
provável contradição em Barth. Apesar de pensar a Revelação de uma forma
distinta do pensamento cristão tradicional (ortodoxia), na prática Barth buscou
mergulhar sua teologia inteiramente na Bíblia, o que o tornou alvo de críticas
tanto por parte dos conservadores que julgavam sua diferenciação entre “Palavra
de Deus” e a bíblia danosa para a fé, como por parte dos liberais que o
julgavam por seu tratamento dado às Escrituras como livro divinamente
inspirado. Havia claramente uma diferença entre “a teoria de Barth acerca das
Escrituras e o uso que ela fazia dessa teoria”, isto é, tratando a bíblia “como
autoridade absoluta na teologia”, e sem dúvida na pregação também (op. cit. p.
89). Portanto, o próprio Barth depõe contra o uso neo-ortodoxo da bíblia na
pregação. Para ele, o pregador não tem “que dizer, senão repetir” o que diz a
Escritura.
Para
nossa tristeza o fenômeno da pregação “inconfessadamente neo-ortodoxa” tem
ganhado muitos adeptos e de certa forma se aproveitado de “mentes”
teologicamente desavisadas, que expostas a esse tipo de prédica pensam estar
diante de uma “nova” e válida maneira de pregar.
Ledo
engano!
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