“por desejos tolos de receber elogios; mas sejam humildes e considerem os
outros superiores a vocês mesmos.”( Fil.2:3 - NTLH )
Começando...
Não, antes que você se atreva ao juízo, deixe-me lhe dizer que não é apenas uma questão de semântica. Quero convidá-lo a uma reflexão sobre como essas quatro atitudes se apresentam em nossas vidas e refletem na vida da igreja.Mas vou logo fazendo um alerta: Fuja da tentação de ler o que segue com os olhos voltados para os outros... leia pensando em si mesmo, em sua caminhada, em seus desafios pessoais, em seu futuro e na obra que Deus tem para que você realize.
A Natureza
A primeira reflexão é sobre a natureza das atitudes que encimam este artigo. Vamos ao DNA de cada uma delas:
Submissão vem do latim submissione e tem a ver com submeter-se, ter disposição para obedecer, humildade. Chega a ser curioso que se encontre nos dicionários a palavra sujeição como um dos significados de submissão. Mas, na verdade sujeição (que vem também do latim) deriva de sujectione, verbete que está mais ligado a dependência, jugo, subordinação, vassalagem, acanhamento e pejo. Assim, submissão é um ato de obediência espontânea. Enquanto que sujeição é imposta pelo constrangimento.Autoridade tem a ver com capacidade, poder, aptidão e reputação em função de conhecimento e/ou experiência em determinado contexto. James C. Hunter em seu livro “O monge e o executivo”, diz que “autoridade diz respeito a quem você é como pessoa, a seu caráter e à influência que estabelece sobre as pessoas. (...) Não pode ser comprada nem vendida, nem dada ou tomada.” Autoritarismo, por sua vez, se refere a despotismo, ou seja, uma forma especial do absolutismo, exercício do poder e do mando absolutos e arbitrários. Desta forma autoridade é a reputação adquirida pela legitimidade do conhecimento e/ou da experiência, enquanto autoritarismo é a imposição arbitrária do poder. Ou seja, a pessoa é autoritária exatamente porque não tem autoridade para o exercício da liderança.
O Foco
Lembrada a natureza dos conceitos e idéias em debate neste artigo, voltemos agora nosso olhar crítico para o foco de cada uma dessas atitudes e descubramos o que elas vislumbram.Observe que o foco da submissão e da autoridade está na missão (sub-missão), no serviço. No caso da igreja, a submissão à autoridade tem o foco no Reino Deus, seus valores e interesses. O servo é submisso aos líderes em função da supremacia dos interesses do Reino.Já a sujeição e o autoritarismo têm o foco voltado para a pessoa (o sujeito ). O autoritário exige sujeição dos que o servem em função de seu próprio ego, seu desejo de ser importante ou mais importante que outros. O que se sujeita, o faz para convencer o autoritário de que ele tem o que nunca teve: autoridade.
A motivação
Agora, tomemos coragem e consideremos as entranhas dessas atitudes, desvendemos as motivações que as sustentam.A submissão é motivada pelo amor e pela fé. O submisso ama de tal forma a causa e crê tanto no seu valor e na sua pertinência, que aceita a liderança como parte deste processo e se põe a aprender nele e com ele. O que tem autoridade conduz o trabalho de forma a proporcionar crescimento e amadurecimento aos que servem sob sua liderança, pensando sempre no bem do Reino.O que acontece com a sujeição é diferente. A motivação é o medo. O que se sujeita o faz movido por este sentimento, pois o autoritário ameaça ao falar, ao olhar, ao criticar e ao exigir. Assim, impulsionado pelo terror emocional, a pessoa se sujeita aos desmandos do que é autoritário.
O propósito
Nossa tarefa agora é muito mais instigante. De posse das considerações feitas até aqui, passemos a sondar o que cada uma dessas atitudes fala sobre o que pretende quem a possui. É hora de tirar as máscaras e conhecer a verdade.O propósito da submissão à autoridade é viabilizar a liderança e possibilitar a realização do que se pretende de forma a auferir crescimento enquanto se cumpre a missão. Assim, a pessoa sabe que, submetendo-se à sua liderança e entendendo bem qual é o seu papel na missão, ela está cooperando para que o êxito seja alcançado de forma integral.Por sua vez, o propósito da sujeição é a manutenção do status quo, é garantir que ambos, o que se sujeita e o que é autoritário, continuem podendo ser quem são. A meta é perpetuar o outro onde ele está, o que se sujeita mantém o autoritário no poder, e este manipula aquele de forma a não deixá-lo crescer. Claro: se o sujeitado crescer, fará de tudo para sair debaixo do jugo do autoritário, colocando em risco o status quo.
O resultado
Você vai precisar ter muita determinação para caminhar a última milha desta jornada. Estamos perto do fim deste artigo e você é convidado a refletir sobre o fruto dessas atitudes para o Reino de Deus... é a hora de vermos o que sobrou...A relação do submisso com a autoridade produz como resultado o crescimento e o amadurecimento de ambos, o cumprimento da missão preservando os valores e os interesses do Reino e a preparação de ambos para níveis mais exigentes e elevados no espectro da missão.A relação do autoritário com o que a ele se sujeita, produz como resultado a desgraça da missão, o ódio e a indignação no coração de ambos, e o retrocesso abissal, porquanto involutivo, na jornada que se pretendia rumo à maturidade para o cumprimento da missão. Ou seja, ninguém cresce, perde-se muito tempo e recursos e a obra permanece parada.
Teminando...
Na obra da igreja de Jesus Cristo não pode haver lugar para se instalar a relação autoritarismo – sujeição. Pois no Reino de Deus o único soberano e inquestionável é o Senhor. Todos somos seus servos com grandes chances de sermos chamados amigos...O que se espera e deve se buscar na dinâmica da igreja e no cumprimento da missão no Reino de Deus, é a relação autoridade – submissão. Pois as pessoas são mais importantes do que aquilo que elas fazem e o submisso nunca é menor ou de menos valor do que o que exerce autoridade, nem este é menor que aquele. No Reino, as relações são motivadas sempre pelo amor e pela fé. A submissão é sempre, ao mesmo tempo, um ato de amor que se faz e um reconhecimento do amor que se tem. Eu me submeto a quem amo e amo o mesmo Senhor que aquele a quem eu me submeto ama. Eu me submeto a quem confio e creio no mesmo Senhor que aquele a quem eu me submeto crê.Na obra do Reino de Deus não pode ser “um mandando e outro obedecendo cegamente”, mas sim uns liderando no poder do Espírito Santo e outros se submetendo às lideranças, debaixo da mesma autoridade. Pois o Espírito é quem capacita, tanto o que lidera com a autoridade que conquistou quanto o que se submete com a sabedoria que alcançou.Devemos então orar e vigiar, para que não entremos em tentação ( do poder, da bajulação e auto-negação ), pois o espírito na verdade pode até estar pronto, mas a carne é fraca.
* Lécio Dornas é
teólogo, educador, escritor, facilitador em programas de formação de liderança
e de docência e pastor da Igreja Batista Dois de Julho, em Salvador – BA.
Nenhum comentário:
Postar um comentário